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“Não é um caso isolado; há dez magistrados afastados em MT”

“Não é um caso isolado; há dez magistrados afastados em MT”

Membro do Conselho Nacional de Justiça, o conselheiro Ulisses Rabaneda afirmou que o Judiciário de Mato Grosso vive um momento de exposição, diante do número de magistrados afastados por suspeitas de irregularidades. Atualmente, dez juízes e desembargadores estão fora das funções no Estado.

 

O magistrado que pune a corrupção, quando você tem uma acusação contra ele de corrupção, causa perplexidade

“Estamos falando de dez casos, não tem como falar que é isolado. […] Nós temos um judiciário que está exposto porque os afastamentos causam perplexidade, porque ao magistrado é dado e a sociedade tem nele aquela figura íntegra, que sempre teve a importância e a autoridade para pacificar os litígios. O magistrado que pune a corrupção, quando você tem uma acusação contra ele de corrupção, causa perplexidade”.

 

Segundo ele, embora os afastamentos causem impacto na imagem do Judiciário e gerem perplexidade na sociedade, também demonstram que os órgãos de controle estão atuando. Rabaneda ressaltou que os magistrados afastados ainda não foram julgados e terão direito à ampla defesa, podendo, ao final, serem inocentados.

 

“Toda função disciplinar que atinge um magistrado, não há como não dizer que se atinge a instituição. O juiz, o desembargador, é um agente político membro de um poder, e quando é atingido, por óbvio, se atinge também a imagem da instituição. Mas é preciso que seja feito. A função disciplinar do CNJ, das corregedorias, é primordial para que tenhamos instituições com credibilidade”.

Na entrevista, o conselheiro também comentou o fim da aposentadoria compulsória como punição máxima, os chamados “penduricalhos”, a necessidade de reajuste anual para a magistratura e o excesso de judicialização no país, que tem mais de 80 milhões de processos em tramitação.

 

 

Confira os principais trechos da entrevista (e o vídeo com a íntegra ao final da matéria):

 

Toda função disciplinar que atinge um magistrado, não há como não dizer que se atinge a instituiçã

MidiaNews – O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afastou dois desembargadores por suspeita de venda de sentenças, medida que também já alcançou juízes, sendo dois deles somente nas últimas semanas. No total, já somam dez magistrados. Qual é o impacto disso no TJ-MT?

 

Ulisses Rabaneda – Toda função disciplinar que atinge um magistrado, não há como não dizer que se atinge a instituição. O juiz, o desembargador, é um agente político membro de um poder, e quando é atingido, por óbvio, se atinge também a imagem da instituição. Mas é preciso que seja feito. A função disciplinar do CNJ, das corregedorias, é primordial para que tenhamos instituições com credibilidade.

 

Aqui no Estado, temos realmente um número relevante de magistrados que estão afastados. Não significa que todos esses magistrados sejam culpados, porque eles ainda não foram julgados. Eles terão direito de defesa no processo, possibilidade de demonstrar a inocência, mas fato é que eles estão afastados porque se identificou, ao menos num primeiro momento, que havia indícios de uma falta disciplinar.

 

Por outro lado, é importante também compreender que, se isso aconteceu, é porque os órgãos disciplinares estão funcionando. Nós temos, como você falou, 10 magistrados afastados, 5 pelo CNJ e 5 pela corregedoria local, o que demonstra que a corregedoria de Mato Grosso está atuando. Bem ou mal, está atuando. E por que falo bem ou mal? Porque é só no processo que vai se vislumbrar e identificar se há culpa ou não daquele magistrado.

 

A corregedoria local, capitaneada pelo desembargador José Luiz Leite Lindote, foi premiada na última semana pelo Conselho Nacional de Justiça como a melhor corregedoria do país de tribunais. O que é um dado importante. E a boa corregedoria não é só aquela que afasta magistrados. Afastar magistrados não é prêmio para ninguém. Eu estou falando da atuação em diversos eixos.

 

Mas nós temos um judiciário que está exposto porque os afastamentos causam perplexidade, porque ao magistrado é dado e a sociedade tem nele aquela figura íntegra, que sempre teve a importância e a autoridade para pacificar os litígios. O magistrado que pune a corrupção, quando você tem uma acusação contra ele de corrupção, causa perplexidade.

 

 

MidiaNews – O senhor vê um fator comum em todos esses casos? Ainda é possível tratá-los como isolados?

 

É um número muito diminuto de magistrados, mas como eu falei, quando você tem uma situação, causa uma perplexidade

Ulisses Rabaneda – Estamos falando de dez casos, não tem como falar que é isolado. O que posso dizer é que temos um número expressivo de magistrados, não só em Mato Grosso, mas no Brasil. E analisando no plano geral, não só do Estado, mas do Brasil, é um número muito diminuto de magistrados que acabam sofrendo a sanção máxima do Poder Judiciário.

 

Eu não vou saber em números precisos, mas nos últimos 20 anos, desde a instalação do Conselho Nacional de Justiça, não chegamos a 200 magistrados aposentados compulsoriamente. Instituto que está em cheque, inclusive, mas era a punição máxima prevista, pelo menos naquele momento.

 

É um número muito diminuto de magistrados, mas como eu falei, quando você tem uma situação, causa uma perplexidade, toma uma proporção e um tamanho por conta exatamente dessas circunstâncias. Mas é um número muito diminuto de magistrados que são flagrados em desvios a despeito de um controle rígido que é exercido não só pelo CNJ, mas também pelas corregedorias.

 

E quando disse no início que não pode se tratar como uma situação isolada, é porque 10 é um número relevante de magistrados afastados. É preciso compreender aonde estamos e como podemos melhorar essa situação e repito: todos eles terão direito de defesa, inclusive a demonstração ao final de que podem ser também inocentes.

 

MidiaNews – O número de magistrados afastados se equipara aos do caso do Escândalo da Maçonaria. Acredita que é mais um episódio que deixará marcado negativamente a imagem e a credibilidade do judiciário Mato-grossosense?

 

Ulisses Rabaneda – Para responder essa pergunta, a gente vem naquela velha máscara do copo meio cheio ou meio vazio. Quando o copo está pela metade, tem gente que acha que ele está meio cheio e tem gente que acha que ele está meio vazio. Depende do ponto de vista. Naquela situação ocorrida há cerca de 15 anos, nós tivemos, a despeito de um longo transcurso do tempo, demonstração de que nem todos eram culpados.

 

Tivemos a reversão de muitas daquelas punições de magistrados que, inclusive hoje, estão no Tribunal de Justiça e que são bons magistrados. Mas por óbvio, não só a época, como hoje, todo o afastamento causa esse impacto. Mas gosto de olhar as coisas sempre pelo lado do otimismo.

 

A despeito de você ter essa circunstância, é possível dizer que as instituições estão trabalhando, que estão atuando, que estão funcionando e que nada está ficando para debaixo do tapete. Algo que é sempre preciso dizer quando se fala nesse tema: uma decisão cautelar como um afastamento não significa culpa de ninguém.

 

 

MidiaNews – O STF praticamente derrubou a aposentadoria compulsória como punição máxima para os magistrados. Como avalia essa mudança? Acredita que isso corrige uma distorção histórica no judiciário?

 

A questão da aposentadoria compulsória é mais complexa do que parece. Para a sociedade como um todo ela soa como um prêmio

Ulisses Rabaneda – A questão da aposentadoria compulsória é mais complexa do que parece. Para a sociedade como um todo ela soa como um prêmio. “O magistrado que pratica um desvio é aposentado? Isso é um prêmio”. Mas veja, isso também tem um outro lado e darei minha opinião para mostrar a complexidade.

 

Por que está previsto ou foi previsto na lei orgânica da magistratura que a punição máxima, administrativamente, é aposentadoria compulsória? É para dar ao magistrado independência. Ele ter a certeza que ele não vai ser colocado para fora da carreira administrativamente. Por isso que é um juiz vitalício, e o juiz vitalício, segundo a Constituição, só pode ser colocado para fora da carreira por uma decisão judicial, não por uma decisão administrativa.

 

Outro detalhe: o magistrado ao longo da sua carreira contribuiu com a previdência. Então, um valor que era ser pago para ele a título de subsídio, que é o salário, não é pago porque vai para a previdência. Esse dinheiro é do magistrado, ele está contribuindo com a previdência.

 

Então vem a pergunta: se ele não tiver a aposentadoria compulsória, vai perder esse dinheiro? Esse dinheiro é dele. O Estado vai ter o enriquecimento disso? São muitas nuances que precisam ser observadas. Frente a todo esse contexto, posso dizer, em primeiro lugar: sou contra a aposentadoria compulsória como punição máxima para os magistrados. Já falei quando tomei posse no Conselho Nacional de Justiça.

 

Porque quando veio a aposentadoria compulsória a pretexto de garantir a independência, estávamos num outro momento, estávamos num momento de ditadura militar, que juízes eram perseguidos. Hoje, temos órgãos de controle que garantem essa independência, como o próprio Conselho Nacional de Justiça.

 

Então, agora vem a decisão do ministro Flávio Dino, que diz que não há mais aposentadoria compulsória e o CNJ vai ter que se debruçar a partir de agora.Já estamos discutindo isso. Administrativamente, o que faremos para depois ir para uma decisão judicial? Não é simples a resolução da questão. Até porque, como falamos, é preciso se garantir uma punição que seja justa para a proporção da lesão causada pelo magistrado, mas ao mesmo tempo também não se pode violar a vitaliciedade. É uma equação que não é muito fácil.

 

MidiaNews – Então o CNJ já está estudando como que vai se ajustar sobre esse tema?

 

Ulisses Rabaneda – Seguramente, nas próximas sessões, iremos apresentar alguma diretriz sobre a matéria. Eu já apresentei uma proposta para o presidente do Conselho Nacional de Justiça de um modelo que se adequa, primeiro, a não inovar nada, porque o Conselho não inova em nada.

 

Utilizar o arcabouço existente, por óbvio, observando a decisão do Supremo para encontrar uma equação e um modelo. Porque magistrado sem garantia, quem sofre é o cidadão.

 

 

MidiaNews – Outro tema que voltou ao debate são os chamados penduricalhos. Na sua avaliação, há excessos nas remunerações da magistratura? O CNJ deveria atuar com mais firmeza sobre esse tema?

 

O Supremo entendeu que as verbas que podem e devem ser observadas pelos tribunais são apenas aquelas criadas pela lei federal

Ulisses Rabaneda – Toda remuneração da magistratura nacional, para que ela até então fosse paga, era obrigatório aos tribunais encaminhar ao CNJ para uma análise. E o corregedor nacional sempre fez uma análise muito rígida. Negou pagamentos que entendia que eram ilegais e autorizou pagamentos que se entendia que eram pagamentos legais.

 

O que ocorre é que o Poder Judiciário Estadual se organiza através das constituições estaduais e através das leis estaduais. Nós tínhamos uma situação em que em determinado estado era prevista uma determinada verba indenizatória, prevista em lei. Em outros estados essa mesma verba indenizatória não existia.

 

Agora veio o Supremo para dizer que essas verbas indenizatórias criadas pelas leis estaduais não merecem ser observadas. O Supremo entendeu que as verbas que podem e devem ser observadas pelos tribunais são apenas aquelas criadas pela lei federal. É uma nova compreensão sobre a temática.

 

Os pagamentos não eram ilegais. Eram legais com a compreensão e o recorte do momento. Agora o Supremo veio com uma outra compreensão. Por óbvio, houve um impacto significativo no vencimento dos magistrados, mas houve essa unificação. O Conselho Nacional de Justiça pediu uma resolução recentemente por determinação do Supremo prevendo o que deve e o que não deve ser pago para o magistrado.

 

Uma coisa que é muito importante, não só para o magistrado, mas todos nós: precisamos ter segurança financeira. Você como jornalista, se não tiver segurança financeira, está me fazendo a pergunta, mas sua cabeça está pensando no boleto que vai chegar no final do mês e como você vai conseguir pagar.

 

Se você tem segurança financeira, consegue exercer o seu ofício de uma maneira livre e de uma forma entregar para a sociedade um melhor trabalho. E com o magistrado também é assim. Com o advogado também é assim. Então, por óbvio, causou uma preocupação a todos os magistrados, porque é algo que muda a sua previsibilidade.

 

Tem que ter o reajuste anual, não há dúvida nenhuma. A inflação, utilizando uma expressão coloquial, come o seu dinheiro

Você tem uma situação financeira e sabe como ela vai ser e de repente tudo muda. Então é compreensível, sim, toda a apreensão da magistratura.

 

MidiaNews – Muitos defendem que a Revisão Geral Anual, que é concedida aos servidores, seja também aplicado aos magistrados. O senhor também defende isso?

 

Ulisses Rabaneda – Tem que ter o reajuste anual, não há dúvida nenhuma. A inflação, utilizando uma expressão coloquial, come o seu dinheiro. Se o magistrado recebe hoje R$ 30 mil por mês, o que ele consegue comprar? Daqui a um ano ele recebendo os R$ 30 mil, não consegue comprar as mesmas coisas. É preciso que haja o reajuste anual.

 

Se não houver, ano a ano ele vai estar ganhando menos a despeito de permanecer o mesmo número, porque a inflação vai deteriorando o subsídio. Ao mesmo tempo em que se corta os excessos, é preciso que haja o reajuste que reponha no mínimo a inflação, para que o poder de compra permaneça exatamente o mesmo.

 

Agora, um problema que temos é que o funcionalismo público como um todo, por disposição constitucional, está atrelado ao subsídio do ministro supremo. Quando aumenta o subsídio do ministro, quando atualiza, por exemplo, cria o impacto orçamentário gigantesco, o que acaba impedindo que haja essa atualização, que é justa. É uma situação prática acaba impedindo.

 

 

MidiaNews – A CPI do crime organizado teve um parecer para indiciamento dos ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes rejeitado no Senado. Como analisa esse episódio? Acredita que fragiliza as instituições ou mostra que os mecanismos de controle estão funcionando?

 

O principal aprendizado, sem dúvida nenhuma, é que não se faz um Poder Judiciário eficiente sem diálogo entre as instituições. Não adianta o Judiciário se fechar em ilhas

Ulisses Rabaneda – Sem entrar no mérito do parecer, ele foi rejeitado. Foi votado no parlamento e foi rejeitado. A despeito do incômodo e do impacto de uma situação como essa, as instituições estão funcionando. E é preciso que seja assim.

 

Houve um relatório lançado por um senador e esse relatório foi levado à votação e acabou vencido ao final. É preciso se respeitar essa decisão e ter a compreensão de que as instituições estão funcionando.

 

MidiaNews – Diante de episódios envolvendo o Judiciário, o Congresso, e investigações sensíveis, vê uma quebra de confiança da população em relação as instituições?

 

Ulisses Rabaneda – Sempre há. Todo cidadão, quando há uma notícia que coloca em descrédito ou atinge a integridade de uma instituição, por óbvio, o nível de confiança diminui. Essa é uma relação de causa e efeito. Mas acho que isso é um ciclo. A partir do instante que temos instituições sólidas e que, a despeito de um determinado momento histórico, tenhamos esta crise de imagem, é preciso compreender que isso é um ciclo desagradável. Mas que as instituições precisam, e elas são feitas por seres humanos, se reencontrar e, se reencontrando, fazer com que essa credibilidade retorne e que a sociedade possa ter confiança nelas.

 

MidiaNews – Pouco mais de um ano após sua posse no CNJ, qual tem sido o principal aprendizado até aqui? E o que mais te chamou atenção no funcionamento do Judiciário?

 

Ulisses Rabaneda – O principal aprendizado, sem dúvida nenhuma, é que não se faz um Poder Judiciário eficiente sem diálogo entre as instituições. Não adianta o Judiciário se fechar em ilhas, se fechar em copas, sem dialogar com o Ministério Público, com a advocacia e sem dialogar com a própria sociedade.

 

Tudo que fazemos no Conselho Nacional de Justiça, quando é dialogado, temos um aprimoramento. Então, isso para mim foi o maior aprendizado e me parece que isso é um consenso no Conselho Nacional de Justiça.

 

Os desafios que temos são imensos. O Poder Judiciário Brasileiro é, posso dizer, o maior Judiciário do mundo. Temos mais de 18 mil juízes e mais de 80 milhões de processos. De modo que, a cada problema resolvido, a cada projeto que é implementado, temos um desafio novo que surge e também os velhos já resolvidos que acabam retornando.

 

Absolutamente tudo aquilo que foi feito precisa um trabalho constante para que seja mantido. Aqui eu falo em diversas áreas. Como eu já falei, transparência. Hoje, está em debate, muito intenso, a questão salarial dos magistrados, que é um eixo muito importante para os magistrados. O magistrado tem que ser bem remunerado, mas é importante também para a sociedade que clama por transparência, principalmente na atividade fim do Judiciário, que é o julgamento dos processos. O cidadão quer saber como a sua demanda está sendo solucionada.

 

 

MidiaNews – Hoje, dentro do CNJ, quais são as pautas que considera prioritárias?

 

Se criou essa cultura do litígio. “A gente se encontra nos tribunais”. Essa é uma frase simbólica. E eu acho que essa cultura precisa se alterar

Ulisses Rabaneda – O Conselho Nacional de Justiça ficou muito grande nas pautas que conduz, mas, dentre as que considero prioritárias, continua sendo a diminuição da carga de processos no Judiciário Brasileiro. Como falei anteriormente, o Judiciário Brasileiro tem mais de 80 milhões de processos. Isto é um número absolutamente avassalador, inclusive para o número de magistrados.

 

O magistrado brasileiro trabalha muito, mas percebemos que está enxugando gelo. Porque, a despeito dos números, especialmente dos últimos anos, terem demonstrado que o Judiciário mais julga do que recebe processos, pela carga histórica, é preciso que ele julgue muito mais. Só que isso é absolutamente impossível, porque são seres humanos.

 

Tendo um Judiciário com um volume tão grande de processos, como solucionar o problema da morosidade? Me parece que hoje não há mais que se falar numa política, ou num pensamento, ou numa cultura de litiosidade. Nós crescemos assim: todos os problemas, uma briga de vizinho, a última frase que se fala vira “vou te processar”. Se criou essa cultura do litígio. “A gente se encontra nos tribunais”. Essa é uma frase simbólica. E eu acho que essa cultura precisa se alterar.

 

Um atraso num voo, vai-se ao Judiciário. O extravio de uma bagagem, vai-se ao Judiciário. Por que é assim? Por que as pessoas e as instituições não conseguem solucionar os problemas por conta própria? Através da conciliação, da mediação, que não só barateia o custo final, mas pacifica. Então, o grande desafio hoje, do ponto de vista do Judiciário, é diminuir a carga de processos, e o grande eixo para isso são as medidas extrajudiciais, fazendo com que tenhamos um Judiciário que sirva para as questões mais complexas.

 

MidiaNews – Mesmo com leis mais duras e mudanças recentes, os números de feminicídios seguem em alta, principalmente em Mato Grosso. O problema está na aplicação da lei, precisa de mais endurecimento ou vê ausência de políticas públicas de conscientização? O senhor já falou que o endurecimento das leis não está resolvendo…

 

Ulisses Rabaneda – Quando falamos de penas mais altas, estamos falando de punir alguém quando o crime já foi praticado. O direito penal é assim. Quando o direito penal aparece, o crime já foi praticado. Então, aumentar as penas resolve o problema? Partimos dessa premissa, que é muito lógica. Punir o agressor ou punir o criminoso significa que o crime já foi praticado. E o melhor para nós é que o crime não seja praticado.

 

Como fazer para que o crime não seja praticado? Essa é uma pergunta histórica que os estudiosos e a ciência tenta responder. Temos observado que penas muito brandas são absolutamente nocivas, porque não tem proporção entre a agressão e a punição. Mas penas muito altas, que simplesmente se aumentam para tentar impedir que o crime aconteça, também não estão resolvendo o problema.

 

É melhor aplicar uma pena que não seja tão alta do que ter a previsão de uma pena alta que não vai ser aplicada

Primeiro, o problema da criminalidade está mais afeto à desigualdade social do que quanto a pena. Isso é histórico. Temos países em que a população é eminentemente pobre e o índice de criminalidade é baixo. Países em que a população é eminentemente abastada, de alto poder aquisitivo que também não tem uma diferença social, o índice de criminalidade também é baixo. Agora, países em que há uma grande diferença social, o índice de criminalidade é alto. Se identifica com muita clareza, e isso também é histórico.

 

Para você ter uma ideia, no século XVIII, Beccaria já escrevia que a diminuição do crime está mais vinculada à certeza do castigo do que à quantidade do castigo.

 

Se você pega o seu veículo e vai para a farmácia, onde não tem lugar para estacionar e para em local proibido, só faz isso porque tem a certeza que o seu carro não vai ser guinchado. Porque se tiver a certeza de que se parar ali, o seu carro vai ser levado embora, não importa o tamanho da multa, não vai parar. Percebe? E com o crime é a mesma coisa.

 

Então, tem que ter penas proporcionais. Se a pena é cinco, dez ou quinze, o que importa é se ela vai ser aplicada, porque é melhor aplicar uma pena que não seja tão alta do que ter a previsão de uma pena alta que não vai ser aplicada. Hoje, o feminicídio é a pena mais alta do Código Penal, que foi aumentada no Congresso Nacional, recentemente.

 

Mas não diminuiu o número de feminicídios. Isso significa claramente que aumentar as penas é importante, mas não basta só isso. Do que adianta ter penas altas se não tem estrutura ou uma delegacia de Polícia para uma boa investigação? Eu estou falando de todos os crimes. Não adianta estar no papel. É importante que haja ação.

 

Penas severas para crimes graves é importante, mas não basta isso. Às vezes a sociedade tem um afago, aumentamos as penas, mas não vai resolver só isso. É preciso estruturar o sistema criminal, mas o sistema criminal chega depois que o crime foi praticado.

 

 

MidiaNews – O ministro Edson Fachin nomeou o senhor para presidir o Laboratório Justiça Criminal, Reparação e Não Repetição, criado para enfrentar erros judiciais e condenações injustas no país. Qual é a importância desse grupo e o que muda no sistema da justiça com essa iniciativa?

 

Não existe violência maior do que colocar na cadeia alguém que é inocente. Imagina um filho inocente preso por um crime que não cometeu

Ulisses Rabaneda – Não existe violência maior do que colocar na cadeia alguém que é inocente. Imagina um filho inocente preso por um crime que não cometeu. E por que isso acontece? Quais as razões? O que leva ao erro judiciário? Esse laboratório tem como objetivo não punir as pessoas magistradas, membros do Ministério Público ou a própria defesa por erros judiciários. Isso tem um campo próprio, por óbvio, se houver uma falta, mas o objetivo não é disciplinar.

 

O laboratório tem como eixo e vocação o estudo de casos concretos onde foram identificados erros judiciários e analisar esses casos para identificar aonde foi a falha, por que elas aconteceram e como evitar que novas falhas aconteçam.

 

É como uma caixa preta de um avião, que é um mecanismo que todo avião possui para que, se houver um acidente, seja possível identificar o motivo e melhorar os mecanismos para impedir que falhas semelhantes aconteçam novamente. Esse é o objetivo do laboratório.

 

MidiaNews – O mandato do conselho tem duração de dois anos. Olhando para os próximos meses, o que o pretende avançar e entregar no CNJ?

 

Ulisses Rabaneda – O meu desejo é terminar o trabalho que se iniciou. Estou em vários grupos de trabalho, presido o Fórum Nacional de Precatórios, um tema sensível no judiciário de todo o país. Então, assumi a um ano o Fórum Nacional de Precatórios com alguns objetivos.

 

Primeiro, colocar em funcionamento o CISPREC, que é o sistema de precatórios em questão de pequeno valor, que é o objetivo fazer com que nós tenhamos um sistema de gestão dos precatórios em todo o país, atualização monetária dos precatórios, ter a compreensão do estoque dos precatórios, melhorar a gestão dos precatórios nos estados através de um sistema confiável e informatizado. Esse é um dos eixos que nós vamos trabalhar para que, pelo menos ao fim do mandato, nós tenhamos uma utilização dos tribunais ao CISPREC.

 

Outros grupos de trabalho, como o Laboratório de Reparação e Não Repetição, colocar ele em funcionamento é um dos objetivos, entregar um trabalho sobre os egressos do sistema prisional em situação de rua, esse também é um dos eixos da nossa atuação, e é o julgamento dos processos, entregar um gabinete que esteja melhor do que quando nós pegamos.

 

O meu desejo é terminar o trabalho que se iniciou

Hoje eu tenho a grata satisfação de ter na nossa produtividade no gabinete um dos melhores índices do Conselho Nacional de Justiça. No último ano, o meu gabinete foi o que mais recebeu processos e o que mais baixou processos no Conselho. Então, isso também é muito importante. Não adianta o Conselho cobrar a celeridade, cobrar os juízes por celeridade se o Conselho não entrega a celeridade, não é possível cobrar aquilo que não se faz dentro de casa.

 

Também quero entregar um gabinete que esteja enxuto com o julgamento dos processos disciplinares que estão a nosso cargo, enfim, lá no Conselho Nacional de Justiça é uma corrida de entrega de bastão, você procura fazer melhor do que o seu antecessor e tem a perspectiva de que o seu sucessor precisa fazer melhor do que você fez.

 

Entregar um pouquinho e dar orgulho pra nossa população aqui de Mato Grosso. É motivo de orgulho por estar lá representando o Mato Grosso, representando a Advocacia Nacional, mas também de muita responsabilidade e procurar entregar algo melhor do que a gente pegou.

 

 

Fonte; Midianews/ Foto: Yasmin Silva/MidiaNews

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