A dificuldade de encontrar biomassa a preços competitivos para manter as caldeiras das usinas de etanol de grãos em funcionamento tem gerado controvérsias no principal estado produtor do biocombustível fabricado a partir do milho. Não demorou para que a preocupação quanto à origem desse insumo chegasse ao Ministério Público estadual.
De acordo com reportagem do site The AgriBiz, o órgão instaurou um procedimento para apurar o aumento do uso de biomassa proveniente de desmatamento em novembro de 2025. Agora, as companhias envolvidas precisam escolher entre um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) ou enfrentar uma ação civil pública, segundo a promotora Ana Luíza Peterlini.
Conforme as pessoas ouvidas pela reportagem, a discussão envolve divergências jurídicas. O texto cita que, apesar de o Código Florestal proibir desde 2012 o uso de madeira nativa como biomassa (mesmo que o desmatamento tenha sido legal), a Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso autorizou o uso em 2022.
“A solução do estado de Mato Grosso é ambientalmente correta, corrigindo o problema das queimadas legais que existiam e eram um grave problema de saúde pública”, disse o fundador da Enebra, Guilherme Elias, ao The AgriBiz.
Entretanto, o afrouxamento das regras estaduais e a expansão do etanol de milho fizeram com que o uso de madeira de desmatamento aumentasse nos últimos anos, aponta a Associação dos Reflorestadores de Mato Grosso (Arefloresta).
A partir de dados do IBGE, a entidade relata que, entre 2023 e 2024, o fornecimento de biomassa vinda de madeira nativa aumentou 97% no estado, enquanto o de madeira reflorestada caiu 29%.
Por sua vez, um levantamento feito pelo MP traz que praticamente 80% do consumo de biomassa pelas grandes indústrias vêm de áreas desmatadas. “Então, de fato, o que supre essa matéria-prima é a vegetação nativa do desmate”, disse Peterlini, que reforça: “Entre 65% e 80% do desmatamento no estado é ilegal”.
A promotora ainda observa que, apesar do consumo de biomassa ter mais que dobrado entre 2021 e 2024, de 3,4 milhões para 7,4 milhões de metros cúbicos, a área plantada com eucalipto caiu 3,5% no mesmo período.
Regras estaduais em discussão
Ainda conforme apuração realizada pelo The AgriBiz, o governo de Mato Grosso divulgou, na semana passada, um plano de desenvolvimento florestal que prevê uma redução progressiva no uso de biomassa de supressão. O texto, entretanto, ainda não foi publicado no Diário Oficial do estado.
Segundo o plano visto pela equipe de reportagem do site, os grandes consumidores poderão usar até 60% de biomassa nativa até 2035. Até 2040, esse limite cairá para 40% e, a partir de 2041, não seria mais permitido o uso de biomassa de supressão. Atualmente, não há limite para o uso.
“Essa regulamentação é justamente o plano do estado para tratar melhor a questão jurídica e trazer diretrizes confiáveis para que possamos ter um desenvolvimento sustentável da área florestal”, disse a secretária-adjunta da secretaria de meio ambiente de Mato Grosso, Lilian Ferreira, em audiência pública.
Mas o presidente da Arefloresta, Fausto Tazikawa, acredita que as ações do estado estariam desincentivando o plantio de eucalipto. “Agora tem um fôlego a mais para a biomassa nativa, ou seja, tem grande consumidor tirando o pé do acelerador para plantar eucalipto”, disse, também durante a audiência pública.
Conforme o The AgriBiz, ele afirmou ter ouvido relatos de planos de plantio de eucalipto começarem a ser desfeitos após a divulgação da diretriz estadual. “Estou recebendo ligações de fundos de investimentos preocupadíssimos em botar recurso aqui dentro. Tem fundos que não querem ter ligação com ações ligadas a desmate, mesmo de supressão legal”, completa.
Além da questão ambiental, há um argumento econômico. De acordo com fontes ouvidas pela reportagem, o preço do eucalipto para biomassa é de 20% a 40% mais alto do que o valor cobrado na venda de madeira de desmatamento.
“Os investidores e o setor financeiro reconhecem que o trabalho com resíduo legal de madeira é um trabalho próximo à reciclagem, inclusive nossa empresa possui selo ESG, pelos benefícios de tal aproveitamento”, argumenta Elias, da Enebra, que também reclama da falta de linhas de financiamento de longo prazo para a silvicultura.
Preocupação de longo prazo
A disponibilidade de biomassa para as usinas de etanol de grãos do Centro-Oeste tem se mostrado um desafio desde o início da expansão do setor. Durante a Conferência NovaCana 2025, em setembro do ano passado, o diretor executivo do Bioind MT, Giuseppe Uchoa Ribeiro Lobo, afirmou que este é um dos principais desafios.
Segundo ele, os novos investimentos são ancorados no crescimento da oferta de milho e no ganho de produtividade do grão. “No entanto, a produção de biomassa não vem acompanhando a evolução da produção de milho”, salienta.
Na ocasião, ele também relatou que a Bioind MT conversou com o governo do estado para desenvolver incentivos para a produção de biomassa, sobretudo eucalipto. Como o ciclo da madeira é mais longo do que o do milho, ele reforçou que as usinas que vão se instalar nos próximos cinco anos “precisam ter a biomassa sendo plantada ontem”.
Conforme números do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) apresentados pelo The AgriBiz, se toda a demanda energética da safra 2025/26 fosse integralmente suprida por biomassa proveniente de florestas plantadas, seriam necessários cerca de 198 mil hectares de florestas de eucalipto.
Para 2030/31, considerando que o consumo de milho para etanol é estimado em 30,2 milhões de toneladas, a demanda florestal chegaria a, aproximadamente, 436 mil hectares. O volume é mais do que o dobro da área plantada com eucalipto em Mato Grosso em 2024, de 211 mil hectares, segundo o Imea.
A disparidade entre oferta e demanda também foi ressaltada pelo diretor comercial da ComBio, Ricardo Blandy. Em entrevista ao NovaCana realizada em agosto de 2025, ele afirma que, em meio à preocupação de encontrar biomassa a valores competitivos, muitas companhias deixam de considerar a necessidade de uma origem segura.
“Quanto mais para o Norte do Brasil, maior é o risco de encontrar uma biomassa ou de supressão – que pode ser legalizada, mas há um risco – ou realmente de origem duvidosa”, afirma.
NovaCana
Com informações do The AgriBiz/Foto: reprodução
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