Recentemente, o BNDES publicou o Edital FEP Fomento nº 01/2026, um passo decisivo para a implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). O objetivo central é estruturar uma base técnica sólida para a certificação de créditos de carbono. A Governança da Certificação é o eixo de integridade essencial para a credibilidade e a funcionalidade econômica deste novo mercado.
A certificação é o “selo de autenticidade” do ativo ambiental. É a Governança de Certificação desse processo que garante que uma tonelada de carbono foi, de fato, reduzida ou removida da atmosfera sob padrões metodológicos cientificamente robustos, auditáveis e rastreáveis. Uma Governança da Certificação disfuncional resulta em insegurança jurídica e um mercado que fica exposto a distorções graves: assimetria de informações, excesso de oferta, preços deprimidos e falta de liquidez.
A escolha do modelo de certificação e as regras de interoperabilidade para a aceitação dos ativos no SBCE são pilares fundamentais na estruturação do nosso sistema. Todavia, é um erro pensar que a escolha é puramente técnica. Há, pelo menos, duas questões cruciais nesse cenário.
A primeira é que a definição de quais projetos e metodologias serão aceitos impacta diretamente na precificação do ativo. É fato que a escala de cada tipo de projeto influencia a oferta de créditos válidos para conciliação de obrigações e, portanto, a dinâmica dos preços dos ativos. A primeira grande função da Governança da Certificação é evitar mecanismos de validação que permitam um excesso de oferta. Existe aqui uma lógica perversa: embora preços baixos possam parecer atraentes para as empresas reguladas no curto prazo, eles criam distorções que comprometem a eficácia do sistema e, ao fim, inviabilizam o próprio fomento à descarbonização.
A outra dimensão está na ponta da oferta. A Governança da Certificação atua como o árbitro de uma disputa entre diferentes interesses legítimos, que, conforme o conceito de Coalizões de Defesa (Advocacy Coalitions) de Paul Sabatier, buscam converter suas crenças técnicas e visões de mundo em normas regulatórias oficiais. Para além do domínio tradicional dos projetos de REDD+, observa-se a organização de grupos em torno de fronteiras como a do carbono biogênico de alta permanência (biochar), da economia da restauração (ARR) e do agrocarbono. Para essas coalizões, o edital do BNDES é um campo de embates no qual o conhecimento técnico é utilizado para garantir espaço e competitividade no SBCE.
Em última análise, instituir o mercado regulado de carbono no Brasil significa construir um novo ecossistema econômico de ativos ambientais. As empresas submetidas ao SBCE precisam compreender a Governança da Certificação como um divisor de águas estratégico. Dependendo dos critérios de certificação que prevalecerem, o cenário para a geração e aquisição de ativos ambientais pode mudar radicalmente, de modo que investimentos planejados podem ser transformados em vantagens competitivas ou em riscos financeiros significativos.
Por: Leonardo Alves Corrêa Sócio do VLF Advogados e professor de Direito Ambiental da Faculdade de Direito da UFMG
-
-
-
Clique abaixo e veja também
Proteção Anti DDOS. Para seu website
Servidor dedicado no Brasil. Personalizado conforme você precise.
Servidor VPS no Brasil. Personalizado conforme você precise.
Hospedagem compartilhada para seus projetos online
Hospedagem Claud para seus projetos online