Estudo elaborado em parceria com o J-PAL subsidia a implementação do Plano Nacional de Cuidados (Brasil que Cuida) e evidencia desigualdades de gênero e raça na divisão do trabalho de cuidado
A sobrecarga de responsabilidades de cuidado segue como uma das principais barreiras à participação feminina no mercado de trabalho no Brasil. Um novo diagnóstico revela que um terço das mulheres com 16 anos ou mais fora da força de trabalho não busca emprego por esse motivo. Entre os homens, essa proporção é de apenas 3,6%, evidenciando um desequilíbrio estrutural na divisão dessas tarefas.
Esse é apenas um dos dados contidos na publicação “Cuidado em Debate – Diagnóstico da Organização Social dos Cuidados no Brasil”, elaborado em parceria entre o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, o J-PAL LAC (Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab) e a Fiocruz.
O levantamento traz dados que evidenciam como a organização social do cuidado no país impacta diretamente a autonomia econômica das mulheres e sua participação no mercado de trabalho. As desigualdades são ainda mais alarmantes entre as mães de crianças menores de três anos com 85% das mulheres apontando as responsabilidades domésticas e de cuidado como o motivo para não trabalhar, enquanto entre os homens na mesma condição esse percentual é inferior a 17%.
Para Ariana Britto, economista e gerente de Políticas Públicas do J-PAL, os dados revelam uma dimensão estrutural da desigualdade de gênero no país. “As evidências demonstram que a responsabilidade com os cuidados continua recaindo majoritariamente sobre as mulheres, tendo impactos diretos sobre suas oportunidades de trabalho, renda e desenvolvimento profissional”, afirma.
Essa dinâmica está diretamente relacionada à forma como o trabalho de cuidado é distribuído na sociedade brasileira. O diagnóstico traz outro dado significativo: as mulheres dedicam 21,6 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerados, quase o dobro das 11,8 horas dedicadas pelos homens.
O estudo integra o conjunto de pesquisas que embasaram a construção do Plano Nacional de Cuidados – Brasil que Cuida, iniciativa voltada a reorganizar as políticas públicas relacionadas ao cuidado no país.
Ariana Britto acredita que esse cenário demonstra como a dedicação ao cuidado influencia diretamente a participação das mulheres na economia. “Quando o cuidado recai quase que exclusivamente sobre as mulheres, isso limita a inserção delas no mercado de trabalho e contribui para a reprodução de desigualdades econômicas e sociais ao longo da vida”, explica.
Desigualdade racial aprofunda sobrecarga
O diagnóstico também aponta que o peso do cuidado é distribuído de forma desigual entre diferentes grupos sociais. As mulheres negras são as mais sobrecarregadas. Ao longo de 2022, elas trabalharam aproximadamente 75 horas a mais por ano em cuidados não remunerados na comparação com mulheres brancas, o equivalente a cerca de uma semana e meia adicional de trabalho.
Embora representem 28,3% da população adulta, as mulheres negras concentram 39,5% de todas as horas de trabalho de cuidados não remunerados no país, evidenciando a dimensão racial dessa desigualdade.
“As desigualdades de gênero se combinam com desigualdades raciais e socioeconômicas. As mulheres negras acabam assumindo uma parcela ainda maior das responsabilidades de cuidado, muitas vezes em contextos de maior vulnerabilidade econômica”, destaca Ariana Britto.
Essas responsabilidades também impactam trajetórias educacionais e profissionais desde cedo. Segundo o diagnóstico, entre jovens de 15 a 17 anos, 5,6% das meninas negras abandonam os estudos por responsabilidades domésticas ou de cuidado, proporção superior aos 3,2% observados entre jovens brancas.
Economia do cuidado envolve milhões de trabalhadoras
O estudo revela ainda a dimensão econômica do setor. Em 2024, o Brasil contava com 5,8 milhões de trabalhadores domésticos, sendo mais de 90% mulheres e 68% mulheres negras. Essa ocupação representa 12,4% de todas as mulheres ocupadas no país, chegando a quase 16% entre mulheres negras, demonstrando o peso da economia do cuidado no mercado de trabalho feminino.
Apesar de sua importância social, o setor ainda é marcado pela informalidade: 47,2% das trabalhadoras domésticas atuam como diaristas e, entre elas, 91% trabalham sem carteira assinada.
“A economia do cuidado envolve milhões de trabalhadoras no Brasil e é fundamental para o funcionamento das famílias e da própria economia. Ao mesmo tempo, ainda é um setor marcado por baixa valorização e altos níveis de informalidade”, afirma Ariana Britto.
Plano Nacional busca reorganizar sistema de cuidados
Os dados reunidos no diagnóstico também subsidiaram a criação do Plano Nacional de Cuidados – Brasil que Cuida, que reúne cerca de 80 organizações intersetoriais dedicadas a reorganizar a forma como o cuidado é ofertado no país e ampliar o acesso da população a serviços essenciais.
Entre os principais objetivos da política estão: ampliar os serviços de cuidado para crianças, pessoas idosas e pessoas com deficiência; promover melhores condições de trabalho para profissionais do cuidado; reduzir a sobrecarga de trabalho doméstico não remunerado, especialmente entre as mulheres; e estimular uma divisão mais equilibrada das responsabilidades entre famílias, Estado, comunidade e setor privado.
Para Ariana Britto, transformar o cuidado em política pública estruturada representa um avanço importante no enfrentamento de desigualdades históricas. “Ao reconhecer o cuidado como um direito e organizar políticas públicas para garanti-lo, o Brasil dá um passo importante no sentido de reduzir desigualdades e construir uma sociedade mais justa”, conclui.
Esse diagnóstico reforça que a desigualdade na distribuição do cuidado continua sendo um dos principais fatores que limitam a participação plena das mulheres no mercado de trabalho e na vida pública. Ao transformar o cuidado em uma agenda estruturada de políticas públicas, o país busca avançar na construção de uma sociedade mais justa, com maior igualdade de oportunidades e reconhecimento do trabalho que sustenta o cotidiano das famílias brasileiras.
Por: Hedy Boscolo-Assessoria
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