A ministra Simone Tebet (Planejamento e Orçamento) defende mudanças no desenho do Simples Nacional para aumentar a arrecadação do governo e ajudar no equilíbrio das contas públicas.
A medida está em análise no programa de revisão de gastos e políticas públicas sob o seu comando. “Não vamos extinguir, mas aperfeiçoar e amarrar um pouco mais, que isso dá receita também”, diz Tebet à reportagem.
A ministra avalia que ainda não chegou o momento de mexer em medidas estruturais, mas antecipa que o governo trabalha na integração de políticas sociais. Como exemplo, cita o abono salarial. “O momento para discutir é o segundo semestre de 2025, para algumas coisas valerem para 2026”, afirma.
*
P – Como recebeu as críticas ao Orçamento de 2025?
SIMONETE TEBET – O PLOA de 2024 precisava de muito mais medidas que dependiam de aprovação do Congresso em quantidade e em complexidade. Hoje, a gente precisa da CSLL temporária para o ano que vem e da JCP. Por mais que esteja se exaurindo a boa vontade do Congresso na recomposição das receitas, concordo quando o ministro Haddad fala que foi uma peça [orçamentária] mais fácil de ser feita.
P – Do lado das despesas, especialistas avaliam que o corte não será suficiente
ST – No final do primeiro semestre [de 2025], apresentaremos ao presidente Lula mais uma lista de cardápio, se percebermos que alguma dessas medidas não vão compensar o suficiente. Esse segundo passo pode ser dado se não conseguirmos os R$ 25,9 bilhões. E, se não chegarmos [a esse valor] com novas medidas, vamos bloquear. Pela lei, não temos outra alternativa. Nem se o presidente falar ‘Eu não quero’. Não tem como fazer maquiagem.
P – O governo tirou do PLOA a maior parte da verba do Auxílio-Gás. É um drible?
ST – Deixamos uma reserva. Temos no projeto de Orçamento um “superávit” de R$ 3,7 bilhões, que é exatamente o valor do Auxílio-Gás. Advogo que, em nome da credibilidade do arcabouço, isso entre para dentro [do Orçamento].
P – Houve antecipação de risco fiscal. Como vê isso?
ST – Falta ao mercado avaliar o contexto. Foi muito mais benevolente com o governo passado. Que a memória não seja seletiva e de curto prazo. Vamos cumprir a meta. Por que com receitas extraordinárias? Ainda não chegou o momento de fazer revisão de gastos estrutural.
P – Quando será esse momento?
ST – O momento da política não é em ano eleitoral. O Congresso está parado. Tem que dialogar com a outra Casa. Enquanto isso, temos mecanismos para alcançar a meta zero, com revisão de gasto vertical -de erros, fraudes e ineficiência- e com a integração de políticas públicas, que é o segundo eixo da revisão de gastos. A gente tem que discutir a revisão de gasto estrutural, mas, enquanto tivermos essa gordura, é o tempo de amadurecermos esse debate transparente com o Congresso.
P – A sra. poderia explicar esse segundo eixo?
ST – Estamos estudando a integração das políticas públicas ou redesenho da qualidade delas. Por exemplo, o abono salarial era só para quem ganhava até um salário mínimo e passou para dois salários mínimos. Acabamos com o abono ou diminuímos o abono de dois para um salário mínimo? Integração pode significar juntar duas ou três políticas em uma só. Posso fazer um grande projeto nesse sentido na área social.
P – O governo conta com a aprovação de medidas de integração de políticas neste ano?
ST – O momento para discussão é o segundo semestre de 2025, para algumas coisas valerem para 2026. Quando falo de integração, estou evitando que se gaste o mesmo dinheiro em duas políticas de ministérios diferentes, que é o sombreamento, ao mesmo tempo não deixando lacunas vazias em outros. Temos que fazer escolhas. Por exemplo, vai ser receita corrente líquida ou receita livre de investimentos [forma de correção] do piso da saúde e da educação? Vamos desvincular o aumento do salário mínimo das políticas sociais?
P – O que mais pode ser feito?
ST – O quarto eixo está relacionado aos 6% do PIB de subsídios tributários, financeiros e creditícios. É urgente fixarmos pela Constituição, ainda que com uma escala em oito anos, a saída de 6% até 2% do PIB desses gastos tributários.
P – A emenda constitucional que determinou essa redução não deu certo. O que muda?
ST – Tem gasto tributário que não precisa ser extinto, mas aprimorado. O Supersimples [Simples Nacional], em relação aos valores. O que é considerado o Supersimples no Brasil? Quem é microempreendedor individual [MEI]? É uma segunda análise no redesenho. Não vamos extinguir, mas aperfeiçoar e amarrar um pouco mais, que isso dá receita também. Outro trabalho, de cruzamento de dados, está sendo feito com a Receita. Quantos abrem 10 CNPJs para fugir do Fisco e serem enquadrados no Simples?
P – O Simples vai passar por revisão?
ST – Passa, mas ninguém vai acabar com o Simples. É justiça tributária, ver quem está fraudando o Fisco, criando empresas para pagar menos imposto. O Simples é 27%, 28% do gasto tributário, muita coisa. O que é considerado Simples e Microempreendedor foi ampliado em demasia. Mas a revisão de erros e fraudes não é só no Supersimples, é em todo o cardápio. Para isso, é preciso coragem.
P – Vai ter mais bloqueio à frente?
ST – Se for necessário. Ainda que no ano que vem a gente conte com receitas extraordinárias, vamos com a meta zero. Paralelo a isso, é insuficiente para 2026. Tem um problema estrutural. Começa-se pós-eleição um diálogo de convencimento da classe política de que é necessário ter coragem para enfrentar a ineficiência de políticas públicas que precisam ser revistas. Salário mínimo acima da inflação é intocável, ao lado da vinculação do salário mínimo com a previdência.
P – A estratégia de curto prazo não contamina a discussão de longo prazo com o Congresso?
ST – Não. O Congresso é mais liberal e tem expectativa de poder. Ele sabe que precisa começar em 2027, seja quem for o próximo presidente, com a casa arrumada sob pena do impacto disso na sustentabilidade da dívida pública. Conto com esse Congresso mais liberal para que a gente avance.
*
RAIO-X
Simone Tebet, 54
Ministra do Planejamento e Orçamento. Começou na vida pública em 2003 como deputada estadual, foi prefeita de Três Lagoas (2005-2010), vice-governadora do Mato Grosso do Sul (2011) e senadora (MDB-MS), de 2015 a 2023. Concorreu à Presidência da República em 2022.
-
Clique abaixo e veja também
Proteção Anti DDOS. Para seu website
Servidor dedicado no Brasil. Personalizado conforme você precise.
Servidor VPS no Brasil. Personalizado conforme você precise.
Hospedagem compartilhada para seus projetos online
Hospedagem Claud para seus projetos online