O narcisismo masculino não é exclusividade de homens inseguros ou carentes de autoestima. Pelo contrário: ele floresce com força entre aqueles que se consideram intelectualmente superiores. Homens inteligentes, acadêmicos, líderes de opinião – figuras que dominam discursos sofisticados -, muitas vezes usam esse capital simbólico como arma para subjugar mulheres. E é justamente aí que reside o perigo: quando a violência psicológica se veste de erudição, ela se torna ainda mais difícil de identificar e denunciar. Em 2025, segundo dados do Ministério da Mulher, houve um aumento de 18% nas denúncias de violência psicológica em relação ao ano anterior, evidenciando que esse tipo de abuso está longe de ser exceção.
O narcisista intelectual constrói sua imagem como alguém brilhante, culto, indispensável. Ele seduz com ideias, com referências, com uma aura de genialidade que encanta e intimida. No início, tudo parece admiração mútua, troca de saberes, parceria. Mas, aos poucos, surge a dinâmica perversa: a mulher é reduzida a espectadora, a discípula, a extensão do ego masculino. Ele não busca diálogo, busca aplauso. Não quer companheira, quer plateia.
Quando essa mulher ousa questionar, discordar ou simplesmente afirmar sua autonomia, o jogo muda. Vêm as críticas veladas: “Você fez leitura como eu sobre isso?”, “Essa é a minha área de domínio”, “Aprofunde mais”. Vem a desqualificação intelectual, a manipulação emocional, o isolamento social. É um abuso que não grita, mas corrói. E, por estar travestido de racionalidade, é facilmente naturalizado: afinal, quem ousaria acusar um “homem brilhante” de violência psicológica?
Esse comportamento não é fruto apenas de traços individuais; é alimentado por uma cultura que associa masculinidade ao poder e inteligência à autoridade. O patriarcado intelectual legitima a ideia de que homens são os guardiões do saber, enquanto mulheres ocupam o papel de aprendizes eternas. Essa lógica sustenta relações abusivas em universidades, ambientes acadêmicos e círculos culturais — espaços que deveriam ser de emancipação, mas que muitas vezes reproduzem hierarquias opressoras. Não por acaso, pesquisas recentes indicam que apenas 38% dos cargos de liderança no Brasil são ocupados por mulheres, segundo o IBGE, revelando um mercado de trabalho ainda desigual. Além disso, estudos da Fundação Getúlio Vargas mostram que 62% das mulheres afirmam já ter se sentido coagidas ou desqualificadas no ambiente corporativo.
As consequências são devastadoras: mulheres silenciadas, autoestima destruída, carreiras interrompidas. E tudo isso sem um único hematoma. É preciso nomear essa violência, romper o pacto de silêncio que protege narcisistas intelectuais. Porque violência psicológica não é menos grave por vir acompanhada de citações sofisticadas ou discursos eloquentes. Pelo contrário: quando a opressão se disfarça de inteligência, ela se torna ainda mais perigosa.
Enquanto continuarmos romantizando esse comportamento como “gênio excêntrico” ou “homem intenso”, estaremos perpetuando um ciclo que corrói vidas e saberes. Narcisismo não é charme; é poder travestido de brilho. E só será combatido quando entendermos que conhecimento não autoriza abuso, que erudição não legitima controle e que liberdade intelectual é direito — não concessão. Até lá, histórias continuarão sendo escritas com lágrimas invisíveis, onde palavras, e não punhos, constroem prisões que sufocam vozes e sonhos.
*Crisbelli Domingos é Doutora e Mestre em Estudos Linguísticos (Pragmática e Ciências Cognitivas), e coordenadora de cursos da área de Línguas e Sociedade da Uninter.
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