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Auditoria interna em empresas públicas, privadas e de economia mista no período eleitoral: independência, ética e confiança

Auditoria interna em empresas públicas, privadas e de economia mista no período eleitoral: independência, ética e confiança

Em momentos de maior tensão política e institucional, a Auditoria Interna deve reforçar sua essência: independência, objetividade, integridade e compromisso com o interesse público.

Os períodos eleitorais ampliam a exposição das empresas públicas, privadas e sociedades de economia mista. Mudanças de governo, maior atenção da imprensa, disputas políticas e questionamentos sobre decisões administrativas tornam esse ambiente especialmente sensível. É justamente nesses momentos que a Auditoria Interna ganha relevância, não como instrumento de governo ou oposição, mas como função técnica, independente e permanente da organização.

Seu planejamento e seus trabalhos devem continuar orientados por riscos, relevância, materialidade e impacto para a organização. O mesmo fato precisa receber o mesmo tratamento técnico, independentemente de quem esteja no comando. Esse é um dos principais testes de maturidade da função: avaliar a administração atual com os mesmos critérios aplicados à anterior e mantê-los diante de uma eventual mudança de governo.

Nesse contexto, o auditor interno deve redobrar a atenção aos princípios éticos e profissionais, mantendo integridade, respeito, neutralidade e uso adequado dos recursos corporativos. Códigos de ética e integridade são importantes, mas não bastam. A cultura ética se revela na forma como decisões são tomadas, recursos são utilizados, conflitos de interesse são tratados e a liderança reage diante de desvios.

Auditores e profissionais das áreas de controle podem ter, como cidadãos, suas convicções pessoais. No exercício profissional, porém, essas preferências não podem interferir no julgamento. A Auditoria Interna deve ter independência tanto para apontar uma irregularidade quanto para afirmar que não existem evidências suficientes para sustentar determinada acusação. As duas situações podem exigir coragem profissional.

A proximidade das eleições também exige maior percepção sobre riscos que podem se intensificar. Publicidade institucional, patrocínios, contratação de serviços, utilização de bens e recursos da empresa, movimentação de pessoal, relacionamento com terceiros e decisões de elevada exposição pública merecem atenção especial.

Também ganham relevância riscos de reputação, desinformação, uso indevido de canais institucionais e eventuais conflitos entre objetivos empresariais e interesses políticos. A legislação brasileira estabelece restrições ao uso da estrutura pública no período eleitoral. Cabe à gestão assegurar conformidade e à Auditoria Interna avaliar, de forma independente, se governança, gestão de riscos e controles estão adequados e funcionando.

Preservar essa independência exige clareza de papéis. A gestão administra e gerencia riscos; compliance e controles internos orientam e monitoram dentro de suas atribuições; a Auditoria Interna fornece avaliação independente; e os órgãos de governança exercem supervisão. Quando esses papéis se confundem, a independência pode ser enfraquecida.

A Auditoria pode compreender a estratégia, dialogar com executivos e oferecer visão prospectiva sem assumir decisões gerenciais que posteriormente precisará avaliar. Independência não significa oposição à gestão, assim como proximidade não deve significar falta de autonomia.

Outro ponto essencial é a transparência. Empresas públicas possuem responsabilidades ampliadas de prestação de contas, mas transparência não significa exposição indiscriminada. Auditorias lidam com informações estratégicas, dados protegidos, denúncias e investigações que podem exigir confidencialidade.

A boa transparência consiste em disponibilizar informações corretas, relevantes e tempestivas às instâncias adequadas e à sociedade, observadas as regras aplicáveis. Relatórios de auditoria devem ser claros, equilibrados e baseados em evidências, evitando uso seletivo que possa alimentar narrativas políticas. Fatos, critérios, riscos e conclusões precisam estar claramente separados de opiniões.

As relações com governantes ou autoridades públicas devem ser sempre baseadas na transparência e integridade, bem como nos demais princípios estabelecidos nas Leis nº 9.790/1999, a Lei das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs), e nº 12.846/2013, a Lei Anticorrupção.

As Normas Globais de Auditoria Interna reforçam uma visão que vai além da verificação de controles: a função deve contribuir para que a organização crie, proteja e sustente valor, fortalecendo governança, gestão de riscos e credibilidade. Em empresas públicas, privadas ou de economia mista, isso significa preservar a confiança de que recursos serão utilizados de forma adequada, riscos relevantes serão tratados e eventuais desvios serão avaliados sem considerar posição hierárquica ou influência política.

Transparência, ética e segurança precisam caminhar juntas. Transparência sem ética pode tornar-se formalidade; ética sem controles pode permanecer no discurso; e segurança sem governança tende a produzir respostas fragmentadas. A Auditoria Interna pode atuar como elemento de conexão entre esses pilares, sempre preservando sua objetividade.

É relativamente simples defender independência quando não há pressão. O verdadeiro teste surge nos momentos de conflito, quando uma conclusão tecnicamente desconfortável precisa ser mantida ou quando se tenta transformar uma avaliação profissional em instrumento de disputa política.

Por isso, o período eleitoral é também um teste para a maturidade da Auditoria Interna. Ela não deve trabalhar para quem está deixando o governo nem para quem poderá assumir. Seu compromisso é com a organização, com a boa governança, com a sociedade e com o interesse público.

Quanto maior a tensão política, maior deve ser a serenidade técnica. Governos passam. Administrações mudam. Mas ética, independência, transparência e compromisso com o interesse público precisam permanecer.

 

Redação / Foto: divulgação