Tratamento com Polilaminina: o que é e para que serve?

A polilaminina é apontada por estudos preliminares como uma substância com alto potencial para auxiliar na recuperação de lesões na medula espinhal, o que inclui a regeneração de axônios e, potencialmente, o suporte à bainha de mielina.
Desenvolvida no Brasil, sob a liderança da bioquímica Tatiana Coelho de Sampaio na UFRJ, a polilaminina atua como uma “cola biológica” ou andaime que facilita o crescimento de novos neurônios e a reparação dos danificados.

A polilaminina é uma substância desenvolvida a partir da laminina, proteína que já existe no corpo humano e é encontrada em grande quantidade na placenta.

 

A laminina é importante para a formação dos tecidos e para o crescimento das células, principalmente durante o desenvolvimento do bebê na gestação.

No sistema nervoso, ela ajuda no crescimento dos axônios, que são partes dos neurônios responsáveis por transmitir os impulsos nervosos. Quando ocorre uma lesão na medula, esses axônios podem ser danificados.

A polilaminina é preparada para atuar como um suporte no local da lesão. Ela forma uma espécie de estrutura que ajuda as células nervosas a se reorganizarem e, em estudos, mostrou potencial para auxiliar na regeneração dos axônios.

Para produzi-la, a laminina é extraída de placentas doadas após o parto, passa por um processo de purificação e é preparada no momento da aplicação cirúrgica. O objetivo é criar um ambiente favorável para a recuperação do tecido nervoso lesionado.

Polilaminina: primeiros resultados e próximos passos

Pesquisas experimentais com polilaminina já mostraram resultados animadores. Em testes anteriores, cerca de dez pacientes apresentaram recuperação de movimentos após o uso da substância. Entre eles estão vítimas de diferentes tipos de trauma, como acidente de trânsito, queda e ferimento por arma de fogo.

Agora, o estudo entra em uma nova etapa. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da fase 1 de testes clínicos. O laboratório Cristália, responsável pelo estudo, vai selecionar cinco voluntários com lesão medular, com idades entre 18 e 72 anos.

Nesta fase, serão incluídos apenas pacientes que tenham sofrido lesão recente, em até 72 horas após o trauma, chamada de fase aguda. Os locais de seleção ainda não foram oficialmente informados, mas a expectativa é que o recrutamento ocorra no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Espírito Santo.

O foco inicial é avaliar a segurança do tratamento, verificando possíveis riscos ou efeitos adversos. Caso os resultados sejam positivos, o medicamento poderá seguir para as fases 2 e 3, que têm como objetivo comprovar a eficácia. Somente depois de concluir todas as etapas é que o produto poderá solicitar registro definitivo para comercialização.

Aqui estão os pontos principais sobre a polilaminina e a recuperação nervosa:
  • Mecanismo de Ação: A polilaminina (uma forma estabilizada de laminina, proteína derivada da placenta humana) estimula a regeneração axonal e oferece neuroproteção contra a morte celular após lesões.
  • Ação na Mielina (Remielinização): Estudos sobre a laminina (componente da polilaminina) indicam que ela promove a transição de células para um estado mielinizado, ajudando a espessura da bainha de mielina após lesões. Estudos específicos apontam o potencial da polilaminina em favorecer a regeneração de neurônios, o que requer a reconstrução da bainha de mielina para a funcionalidade nervosa.
  • Resultados em Humanos: Testes experimentais e uso compassivo mostraram que pacientes com lesões medulares graves (paraplegia e tetraplegia) tiveram retorno de sensibilidade e movimentos, sugerindo uma reestruturação funcional na medula, incluindo a regeneração nervosa.
  • Fase da Pesquisa: É fundamental destacar que a polilaminina ainda está em fases de estudos clínicos para comprovação de eficácia e segurança (fase 1 autorizada pela Anvisa no início de 2026)

Quem é Tatiana Sampaio e por que sua pesquisa ganhou destaque nacional?

Tatiana Coelho Sampaio é bióloga e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela coordena o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, no Instituto de Ciências Biomédicas, onde desenvolve estudos voltados à regeneração de tecidos.

Desde a década de 1990, Tatiana se dedica à pesquisa com polilaminina. Ao longo de quase 30 anos, o trabalho da cientista buscou transformar conhecimento de laboratório em aplicação prática na área da saúde.

No início deste ano, essa trajetória alcançou um marco importante, o composto desenvolvido a partir de suas pesquisas deu origem a um medicamento totalmente brasileiro.

O produto recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar a fase 1 de testes clínicos em humanos, etapa que avalia principalmente a segurança do tratamento.

A atuação de Tatiana Sampaio destaca a importância da pesquisa científica nacional e mostra como estudos de longo prazo podem gerar avanços relevantes para a medicina.

Tetraplegia: entenda a condição e os avanços da ciência

A tetraplegia é uma condição causada por lesão na parte alta da medula espinhal, geralmente na região do pescoço. Quando isso acontece, a pessoa pode perder os movimentos e a sensibilidade dos braços, das pernas e do tronco.

As causas mais comuns são acidentes de trânsito, quedas, mergulhos em locais rasos, violência com arma de fogo ou doenças que afetam a medula. A gravidade depende do local e da extensão da lesão.

Entre os principais sintomas estão a dificuldade ou perda total de movimento nos quatro membros, alteração na sensibilidade, problemas respiratórios (em casos mais graves) e mudanças no controle da bexiga e do intestino.

Atualmente, o tratamento envolve estabilização da coluna, cirurgia quando necessária, reabilitação intensiva e acompanhamento multidisciplinar. Ainda não existe cura definitiva, mas a ciência busca novas alternativas.

Uma das linhas de pesquisa em destaque envolve a polilaminina, substância desenvolvida a partir de uma proteína natural do corpo humano. Estudos investigam se ela pode ajudar na regeneração de fibras nervosas lesionadas, criando um ambiente favorável para a recuperação da medula.

Embora ainda esteja em fase de testes, a pesquisa representa uma esperança para o futuro do tratamento de lesões que podem levar à tetraplegia.

 

Fonte: G1, Veja, CNN e BBC/ Foto: reprodução internet

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