Como presidente da CDL Cuiabá, analiso a decisão do Copom de manter a Selic em 15% com preocupação técnica e um olhar prático sobre os negócios locais. Embora reconheçamos a complexidade do combate à inflação, é nosso dever apontar os efeitos concretos que essa política prolongada tem no dia a dia do setor.
Ao permanecer em um patamar historicamente elevado, a maior dos últimos 20 anos, a segunda do mundo, mantém o custo do crédito caro. Isso não causa necessariamente um colapso imediato nas vendas, mas introduz um fator de estagnação e pressão crescente.
Em Cuiabá, observamos um cenário claro: o ímpeto de consumo, especialmente para itens de maior valor que dependem de financiamento, foi contido. As vendas não despencaram de forma dramática, mas perderam o dinamismo necessário para a expansão saudável dos negócios. Projetos de investimento das empresas, como modernização de lojas e estoques, são constantemente reavaliados e, muitas vezes, postergados devido ao custo do capital.
O sinal mais claro e preocupante desse cenário, conforme também destacado pelo SPC Brasil, é o avanço da inadimplência. Este é um termômetro crucial. O endividamento mais caro, combinado com um consumo contido, apertou o orçamento de famílias e de pequenos e médios empresários.
O aumento das contas em atraso não é apenas um dado estatístico; ele representa dificuldade real de fluxo de caixa, redução da capacidade de reinvestimento e um risco crescente à sustentabilidade de diversos estabelecimentos, o que inevitavelmente impactará na manutenção dos postos de trabalho.
Entendemos que a política monetária tem um objetivo primordial de controle da inflação. No entanto, quando mantida de forma tão restritiva por um período extenso, seus efeitos colaterais sobre a atividade econômica se acumulam. O risco que identificamos não é de uma queda abrupta, mas de uma erosão gradual da confiança e do potencial de crescimento do comércio e serviços em Cuiabá.
Portanto, nosso posicionamento é de alerta e de apelo por equilíbrio. A CDL Cuiabá defende que o controle da inflação deve caminhar lado a lado com medidas que restabeleçam a confiança e a previsibilidade fiscal, pensando menos em eleição e mais em crescimento sustentável. A superficialidade tem um preço muito alto e já pagamos por isso em 2015/16. Só com este conjunto de ações será possível criar as condições para um ciclo sustentável de redução da taxa de juros, ainda em 2026.
O momento exige prudência, mas também visão de futuro. O comércio cuiabano é resiliente e continua atendendo a população, mas precisa de perspectivas claras de um crédito mais acessível para continuar sendo o motor da economia local e gerador de empregos e renda. Esperamos que as próximas decisões do Copom considerem, com o devido peso, os sinais de pressão que já são evidentes na ponta final da economia, enquanto isso vamos fazendo nossa parte ofertando treinamentos, capacitações e serviços que facilitam a vida de todos os empreendedores.
*Júnior Macagnam é empresário da moda há mais de 20 anos e presidente da CDL Cuiabá.
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