Enquanto os Estados Unidos voltam a endurecer políticas migratórias e suspendem a emissão de vistos para brasileiros e cidadãos de dezenas de outros países, uma pergunta inevitável surge:
será que a leitura sobre o Brasil e seus profissionais ainda está presa a um mundo que já não existe mais?
A recente decisão do governo norte-americano de suspender o processamento de vistos para mais de 70 países, incluindo o Brasil, não é um episódio isolado. Ela se insere em uma lógica recorrente: tratar a mobilidade internacional como ameaça, e não como ativo estratégico.
O problema é que o mundo mudou — e o Brasil mudou com ele.
O Brasil não é mais periferia profissional
Hoje, o Brasil forma profissionais altamente qualificados em áreas estratégicas como saúde, engenharia, tecnologia, energia, agronegócio e serviços especializados. Médicos, enfermeiros, engenheiros, técnicos e pesquisadores brasileiros já atuam — com reconhecimento — em diversos países da Europa, do Oriente Médio e da Ásia.
Tratar esse capital humano como um risco genérico revela mais sobre a política interna americana do que sobre o Brasil em si.
A suspensão de vistos não responde ao perfil real do profissional brasileiro. Ela responde a agendas domésticas, eleitorais e ideológicas.
Enquanto os EUA fecham, outros mercados organizam o acesso
O contraste com a Europa é evidente.
A União Europeia enfrenta desafios concretos de escassez de mão de obra qualificada, especialmente em setores regulados como saúde e áreas técnico-industriais. Em vez de fechar portas de forma indiscriminada, a Europa opera de outro modo:
- critérios claros,
- reconhecimento de qualificações,
- certificações técnicas estruturadas,
- exigência de idioma funcional,
- integração progressiva e regulada.
Não é um sistema simples.
Mas é um sistema previsível.
A Europa não vende atalhos, ela oferece percurso.
O problema nunca foi o brasileiro. Sempre foi o improviso.
É importante dizer isso com clareza:
o brasileiro não é rejeitado pelo mundo.
O que o mercado global rejeita é improvisação, desalinhamento técnico e expectativas construídas sem preparo real.
Onde há método, formação adequada e compatibilidade regulatória, há espaço.
Onde há promessa vazia, há frustração.
Nesse sentido, a política americana atual não reflete como o mundo vê o Brasil, mas sim como um governo específico escolheu reagir às suas próprias tensões internas.
A nova lógica global é clara: quem se prepara, circula
O mundo caminha para um modelo cada vez mais seletivo, não por nacionalidade, mas por competência validada, comportamento profissional e aderência aos sistemas locais.
Não basta querer ir.
Não basta existir vaga.
Não basta haver escassez.
É preciso estar preparado para o padrão do destino.
Enquanto alguns países insistem em muros administrativos, outros constroem pontes técnicas.
Talvez o erro seja continuar olhando para o lugar errado
Talvez a pergunta não seja por que os Estados Unidos endureceram, mas sim por que ainda insistimos em tratá-los como única referência.
O mundo é maior.
As oportunidades são mais diversas.
E o profissional brasileiro, quando bem preparado, é competitivo.
A Europa entendeu isso.
Outros mercados também.
Parece que Trump ainda não.
Da Assessoria/ Foto: divulgação
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