INDÚSTRIA DO IMAGINÁRIO (III) – Como se fabrica a opinião do brasileiro desinformado

INDÚSTRIA DO IMAGINÁRIO (III) - Como se fabrica a opinião do brasileiro desinformado

Em boa hora, altamente interessados no desenvolvimento civilizatório do país, jornalistas, bacharéis em filosofia, ciências sociais e quitandeiros convidam o Brasil a pensar sobre a necessidade de códigos de conduta profissionais — como os que já submetem o Judiciário e o Supremo Tribunal Federal.

A depuração do padrão de moralidade do país só vai se consumar, evidentemente, com um código de conduta para empresas jornalísticas, jornalistas e fabricantes de conteúdos em geral.

A começar pelo básico. Quem pode ser dono de empresas de comunicação no Brasil? Estrangeiros não podem. Mas podem criminosos condenados por peculato, estelionato e corrupção ativa. Não só quem está cumprindo pena. Pode também quem aguarda o desfecho de outras graves acusações.

É o caso do ex-senador Luiz Estevão, que montou uma máquina de fuzilamento para chantagear juízes que cuidam de seus processos: o portal “Metrópoles”. Estevão tem uma predileção peculiar para contratações — uma ligeira preferência por quem se posiciona bem no ranking de acusados por práticas jornalísticas corruptas. O resultado é o festival de bobagens que o portal publica.

Aliás, pela cotação do mercado, os repórteres mais valorizados e disputados são os que fazem esse tipo de jornalismo trapaceiro, fariseu, hipócrita e demagógico. E que trabalhem com a presunção de desonestidade (dos outros).

Luiz Estevão foi duramente metralhado por suas delinquências, até o dia em que virou proprietário de empresa jornalística. Foi virar colega dos donos de grupos de comunicação e contratador de jornalistas, para ser canonizado. Seus crimes foram praticamente esquecidos e ele já concorre à presidência do Sindicato dos Homens Honestos.

Raposas no galinheiro

O senador cassado não é parente de juízes, até onde se sabe não participou dos esquemas do banco Master, não é dono de escritório de advocacia como o governador do Distrito Federal, mas faz de tudo para emparedar os julgadores que não atendem seus pedidos, como o ministro do STF, Dias Toffoli. Sob aplausos de linchadores, ele se vinga diariamente do ministro que o mandou para a cadeia.

Exigir ficha limpa dos donos dessa máquina que ajudam a eleger ou incinerar pessoas seria um bom começo.

Outra providência poderia ser uma revisão do relacionamento das empresas com o setor público. Por exemplo, o próprio site da Prefeitura de São Paulo informa que as sedes dos jornais O Estado de S.Paulo e da Folha de S. Paulo não dispõem de “Habite-se”. Ou seja, deveriam ser interditadas.

O primeiro prédio porque foi construído com intervalos ilegais entre um andar e outro (para economizar na obra); o segundo por se ter ligado dois edifícios, um ao lado do outro, com pontes improvisadas.

Esses casos dão boas pautas para grandes reportagens. Como o caso do diretor do Estadão que também era cavaleiro ou grão-mestre da maçonaria. Com o peso político do jornal, o diretor conseguiu que a Polícia Militar doasse para a maçonaria a coleção de espadas históricas da gloriosa Força Pública do Estado de São Paulo. O jornal não noticiou. Para publicar essa informação, o correto seria checar se, por acaso, elas foram devolvidas. Mas não pelas regras em vigor, claro.

Por causa desse mesmo diretor, os veículos de comunicação da casa (Jornal da Tarde, Agência Estado, Rádio Eldorado, Estadão) tiveram que modificar uma grande reportagem sobre fraudes na Previdência. É que na lista das aposentadorias impossíveis, o diretor maçom recebia por cinco pessoas.

São boas as histórias do Estadão, como o fato de ter penhorado as mesmas terras quase quarenta vezes, no Paraná, para obtenção de empréstimos bancários.

É rico o capítulo das anomalias que se normalizam na linha do “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”. Empresas jornalísticas, em geral, são isentas de multas. No campo tributário, de lugar para lugar variam, mas abundam.

Durante décadas, jornais e jornalistas foram isentos de imposto de renda. Passagens aéreas e automóveis tinham desconto de 50%. Isso ainda existe aqui e ali. Casas e apartamentos de Brasília eram financiados sem juros e parcelas a perder de vista para jornalistas.

Falhas geológicas

A imprensa tem no seu DNA uma aguda preocupação com o Erário. Mas, em praticamente todos os órgãos públicos, os jornais desfrutam dos “comitês de imprensa” com toda uma estrutura — de funcionários, equipamentos, café etc — às custas do contribuinte.

Claro que houve evolução. A Gráfica do Senado deixou de presentear jornalistas com a publicação de livros — usados para reproduzir textos já divulgados nos seus jornais. O Senado chegou a pagar salários de 1.500 jornalistas. A maioria não aparecia no serviço. Era só o salário mesmo.

Essa prática se reproduzia e ainda se reproduz em diversos estados. Com a credencial de setorista na Assembleia ou no Palácio de Governo, o jornalista ganha um salário pago pelo contribuinte.

Ao fulminar seus alvos, os jornais bem poderiam estudar a trajetória de suas empresas. É o caso da Folha. O refundador do jornal, Octávio Frias de Oliveira, viveu a mesma crise que Edemar Cid Ferreira e Daniel Vorcaro. O sócio de Frias no Banco Nacional Imobiliário (BNI) usou dinheiro do banco para financiar sua campanha eleitoral.

O banco entrou em processo de liquidação extrajudicial. Frias teve seus bens bloqueados pela Justiça e teve que começar sua vida financeira do zero. Por algum tempo, refugiou-se na Argentina. Mas sua biografia positiva vale muito mais que isso: ele e seu filho Otavio serão sempre lembrados por terem ajudado a reformular o jornalismo brasileiro. Não deveria ser crucificado pelo tropeço. Mas, fosse hoje, estaria no lugar de Vorcaro.

Algo que o jornalismo americano pode ensinar ao brasileiro: ser menos monocromático. Aqui, o alvo é santo ou demônio. Não existem nuances. Faz falta. Por exemplo, o retrospecto de vida de Frias de Oliveira e Roberto Marinho lhes é favorável. Não seria justo eternizar suas imagens por tropeços. Claro que não é o caso de Luiz Estevão, por exemplo.

No ranking das piores páginas do jornalismo brasileiro não pode faltar a atuação de jornalistas nos simulacros de inquéritos (sempre apelidados de nomes ridículos e novelescos) chamados “operações”. Extrapolou-se a relação tradicional entre o jornalista e a fonte. De troca de favores, virou conluio.

A tal força-tarefa, que se descobriu depois ser uma organização criminosa, barganhava suas suposições, suspeitas e ilações em troca da glorificação da “fonte”. As insinuações, quase sempre sem materialidade que as respaldassem, eram vendidas como verdades absolutas — mesmo sem qualquer prova ou evidência.

Os diálogos entre os participantes da “força-tarefa” da “lava jato” mostram “professores de jornalismo” dando aula para a turma de Curitiba sobre como emparedar ministros do STF. Não como jornalistas, mas como cúmplices. Manipulação que está em cartaz de novo.

O esquema curitibano começou com o troca-troca de “informação”. O jornalista que apurasse algo que a PF ou MPF pudessem usar ganhava exclusividade na hora do bote contra o alvo. Mas evoluiu.

O truque mais usado passou a ser anunciar falsamente que alguém estava fazendo delação premiada. O jornalista sabia que era mentira, mas, num cenário de desespero, alguns acusados atropelavam-se para dizer qualquer coisa que equivalesse a uma alforria.

O número de delatores arrependidos que depois retiraram o que disseram mostra a validade da manobra. A armadilha não saiu da moda, como se vê em relação a Daniel Vorcaro — que até o momento da publicação deste texto, em momento algum cogitou da hipótese.

Adotar a mentira como ferramenta de trabalho e tolerar maledicências fabricadas sem checagem é algo que deveria ser evitado e não premiado. Até porque os próprios empresários de comunicação podem ser vítimas disso. Por exemplo, há quem garanta que a Globo tem um débito de 198 milhões de reais inscritos na dívida ativa da União em relação à Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) e remessas para o exterior.

Dá ou desce

Outra intriga na linha lavajatista: o grupo Globo está empenhado para que o governo do estado do Rio de Janeiro adquira mais de 200 mil câmeras de rua. O plano é fazer uma licitação de R$ 2 bilhões. A principal empresa habilitada — veja como é fácil “denunciar” sem provar — pertenceria ao grupo Globo. Se alguém perguntar, atribua a seis fontes anônimas e tudo bem.

A Rede Globo tem tido sérios embates com o Supremo. O grupo queria afastar a incidência da Cide em algumas hipóteses que atingem as emissoras. Especialmente na importação de programas (como BBB etc).

Por maioria, a tributação foi mantida no STF, sem alteração. Enquanto fuzila o tribunal durante o dia, de noite os advogados da Globo percorrem gabinetes para tentar mudar a decisão com embargos de declaração ainda pendentes de julgamento.

O conluio, inicialmente urdido em Curitiba, foi além da imaginação. A direção do grupo Globo, mancomunada com o PGR Rodrigo Janot, combinou uma manobra destinada a derrubar o então presidente, Michel Temer. O procurador prometeu passar com exclusividade para a emissora uma confissão da prática de corrupção do presidente. O plano da rede era levar para o Planalto a ministra do STF, Cármen Lúcia, com quem os Marinho têm excelente relação.

Só quando a gravação da “confissão” apareceu é que se viu que a frase “tem que manter isso aí” dita ao empresário Joesley Batista, não configurava autorização para pagamentos que visavam comprar o silêncio de Eduardo Cunha e Lúcio Funaro.

Panteão dos picaretas

A promiscuidade camuflada prossegue, mas teve um de seus momentos perversos na quebra da Schahin Engenharia. O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o empresário Lúcio Funaro compraram uma usina da empresa. Para baratear custos, dispensaram o seguro e reduziram perigosamente o número de colunas que deveriam sustentar a represa — que acabou desmoronando.

O caso da Schahin nada teve a ver com o esquema “lava jato”. Mas Cunha e Funaro usaram todo seu poder no governo Temer e na Câmara para sitiar a família dona do grupo. Três CPIs foram montadas. A família foi intimada dezenas de vezes para ser açoitada no pelourinho parlamentar.

A Receita Federal aplicou multa de R$ 8 bilhões (por uma prática comum até da Petrobras, que era a de abastecer navios fora do Brasil, por preço mais baixo) e investidas da CGU, TCU e outros. Veja a reportagem (para assinantes) clicando aqui.

Mas para a demonização da empresa, seria necessário fritá-la em público. Prestou-se a esse papel a jornalista Malu Gaspar — como já fizera em outras ocasiões e voltaria a fazer. A empresa neutralizou, documentadamente, cada torpedo fabricado por Cunha e Funaro. Não adiantou. A reportagem na revista piauí publicou a versão mentirosa.

Herói da categoria

São esses fiscais da moralidade pública que barganharam e barganham com delegados, promotores, procuradores e auditores acusações fraudulentas, que são estimuladas pelo imobilismo das vítimas — que acham mais prudente “não mexer com a imprensa”, um critério errado de lidar com perversões.

Um livro, em fase de produção, deve contar passagens notáveis da profissão, como a do jornalista Mario Eugênio, que cobria a área policial em Brasília. Com informações que recebia de suas fontes na polícia, Eugênio mantinha um esquema de chantagens e extorsões. Quem não pagasse teria sua privacidade e intimidade expostas no jornal.

Chegou a ser investigado por isso pelo extinto Serviço Nacional de Informações (SNI). Depois de sua morte, a Federação Nacional dos Jornalistas deu seu nome ao prêmio destinado a incentivar a qualidade e a ética no jornalismo. Eugênio foi assassinado em uma guerra de quadrilhas que disputavam territórios.

São histórias boas demais para ficarem inéditas. Certa vez, um delegado da Polícia Federal, ao prender um criminoso que tinha diversas identidades falsas, procurou o presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. O falsário tinha carteira de jornalista do Sindicato. Mas autêntica. O sindicalista, meio que envergonhado, confessou ao policial: se excluísse os falsos jornalistas sindicalizados, a entidade perderia metade de sua receita.

Ética para os outros

Ética no Jornalismo, aliás, foi o tema de Fórum promovido pela Folha de S.Paulo, em junho de 2016. O evento foi patrocinado pela Construtora Odebrecht — à época já como ré da “lava jato”. Além de vestais como o integrante da Academia Brasileira de Letras, Joaquim Falcão, que participou também da força- tarefa de Curitiba, a Folha levou ao evento o mesmo ministro Gilmar Mendes, que o jornal tanto critica quando ele vai a eventos acadêmicos promovidos por think tanks. Lá estiveram também Luiz Fux e Rosa Weber, algo absolutamente natural — promovido pela Folha ou não.

Basicamente tudo o que a imprensa publica como escândalo de dia é praticado por suas empresas jornalísticas à noite. Quando o Supremo suspendeu o benefício da desoneração da folha de pagamentos, os jornais — em especial do grupo Globo — tiveram que se acertar com o governo federal para desfrutar do favorecimento inexplicado por mais algum tempo.

Quero meu poder de volta
Houve uma era em que quem comandava o país era o poder econômico e a imprensa. Sobreveio o reinado militar (a imprensa sempre na antessala). A Constituição Federal de 1988 transferiu o eixo do poder para o Judiciário. O constituinte decidiu que o poder moderador da República seria o Supremo Tribunal Federal que, depois de um período de adaptação, passou a governar o Brasil.

O Congresso preferiu abdicar de seu poder para receber sua parte em dinheiro. Já o Executivo, o empresariado e a imprensa não se conformam: querem seu poder de volta.

É de uma desonestidade quase desumana alinhar coincidências para chegar a conclusões não fundamentadas. Sempre insinuadas. Na cesta básica do falso rigor punitivista falta algo de autocrítica e honestidade. Fosse pedir desculpas ao leitor e corrigir das milhares de informações erradas publicadas nos últimos dez anos, a imprensa passaria cem anos ajoelhando no milho.

O esgoto da história
Não é muito original ficar repetindo que os delírios convertidos em inquéritos e processos foram para o esgoto da história porque os ministros do STF são corruptos. A raiz e os galhos dos grandes dramas do país está na disfuncionalidade, ineficiência e má-qualidade da mão de obra. Aplicado um “provão” no professorado, jornalistas, médicos e nos chamados “operadores jurídicos” — quem arrisca dar um palpite do índice de reprovação?

Evidente que é mais fácil atribuir tudo à corrupção, ao tal PCC com seus poderes intergaláticos e, claro, ao STF.

As mazelas aqui descritas sobre jornais e jornalistas sempre poderão ser descritas de maneira cruel, de forma a açular os instintos mais raivosos do leitor. Assim como podem ser contextualizadas dentro das deficiências estruturais do país — o que está mais perto da realidade.

Mas para tratar dos outros, a imprensa usa a primeira fórmula. Para si, a segunda.

A pergunta, ainda, à espera de resposta: qual foi o voto, de que ministro, que favoreceu algum “parente”. Essa basta, mas pode-se ir além — qual foi o voto dado em desacordo com a lei, com a doutrina, jurisprudência e precedentes?

 

Fonte: Conjur / Foto: reprodução Gemini

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