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Cota Zero vira moeda de “caça votos” em ano eleitoral

Cota Zero vira moeda de “caça votos” em ano eleitoral

Deputado que votou pela proibição da pesca assume que os parlamentares sabiam dos prejuízos quando aprovaram o Cota Zero. Governador em exercício e pré-candidato à reeleição vai pessoalmente à audiência pública para ouvir o que já foi dito por mais de três anos. Empresários do turismo e pesca esportiva ganham aplausos nos relatos sobre os lucros obtidos nos últimos anos, enquanto pescadoras e pescadores artesanais choram. Isso é um resumo do que foi a audiência pública da última sexta-feira (22), em Cuiabá, que tratou dos impactos da Lei 12.434/24. A possibilidade de revogação nem chegou a ser cogitada. No final, promessas vazias e uma tentativa de solução que não resolve o ponto mais crítico do problema.

Para o secretário executivo do Fórum Popular Socioambiental de Mato Grosso (Formad), Herman Oliveira, a audiência serviu mais para cumprir protocolos regimentais da Lei em vigência do que propositiva para recuperar os impactos socioeconômicos às comunidades ribeirinhas, colônias de pesca e comércio local. A prova disso, segundo ele, foi a decisão anunciada pelo governador Otaviano Pivetta, de reabrir o Repesca (Registro Estadual de Pescadores Profissionais), atualmente com 2.172 pessoas cadastradas, e a criação de um grupo de trabalho para apresentação de uma nova proposta sobre a pauta. A informação extraoficial é de que seria de uma lista ainda mais reduzida, com três espécies liberadas por bacia. O prazo para a conclusão é de 15 dias.

Cota Zero vira moeda de “caça votos” em ano eleitoral

“O governador fingiu que teve uma ideia de improviso e em solidariedade aos pescadores. A questão do cadastro de pescadores não é o maior dos problemas, até porque há incertezas do ponto de vista previdenciário. A ALMT promoveu várias reuniões pelo Observatório da Pesca e não chegou a uma conclusão ou encaminhamento relevante. Como um novo GT composto pelos mesmos deputados pode apresentar alguma solução?”, questiona.

Dos 24 deputados estaduais, a audiência pública contou com a presença de três parlamentares. O deputado Wilson Santos (PSD), que propôs a discussão, Carlos Avallone (PSDB), que soltou a inacreditável fala “quando aprovamos a lei, nós sabíamos que a vida de vocês ia passar por dificuldades”, e Eduardo Botelho (MDB), presidente da Comissão de Meio Ambiente. Em uma sala virtual da ALMT, pesquisadores e especialistas na pauta foram ignorados e não puderam fazer as suas intervenções.

Entre os corredores do auditório da ALMT, vaias e contestações dos dois lados. Enquanto pescadoras e pescadores artesanais ouviam com indignação e lágrimas nos olhos sobre os ganhos do setor produtivo com o Cota Zero, pessoas comuns e que não vivem do pescado, vestidas com camisetas distribuídas por empresários da pesca esportiva, gritavam a qualquer momento e sem qualquer argumento. Uma cena grotesca e que evidencia a desigualdade social, em que somente um setor, já economicamente estruturado e beneficiado, tem alcançado lucros.

Interrompido durante a sua fala com a chegada do governador Otaviano Pivetta (Republicanos), o pescador Moacir Carvalho, presidente da colônia Z11 de Poconé, fez um apelo emocionado para que tivesse de volta o seu direito de ofício herdado de tantas gerações, assim como a maioria do povo da pesca. “Somos dignos do nosso trabalho. Não somos predadores, somos trabalhadores. Faço um apelo para que as nossas famílias possam voltar a ser felizes. Só queremos voltar a trabalhar”, disse.

A entrada do governador no auditório da ALMT aumentou o tom eleitoreiro e político da audiência. Cercado de fotógrafos e membros da sua equipe, Pivetta sentou-se ao lado de pescadores, sinalizou que os escutava, acenou para fotos e sorrisos ao mesmo tempo que o coro era de “Revoga, revoga!”. Ao dizer que é “leigo” da pauta, afirmou estar convicto de que o Cota Zero trouxe prejuízos, mas não assumiu compromissos por parte do Executivo. A tarefa ficou mais uma vez com órgãos estaduais e parlamentares que há três anos pouco fazem pelo segmento da pesca artesanal.

“Apesar de todo o esforço do governo do estado e da ALMT em retirar a dignidade dessas pessoas, não vi ninguém quebrado, ou desanimado. Pelo contrário, eles foram lutar por seus direitos. Ainda estão fortes e nos dão força para continuar essa luta. Mesmo com toda a cena política e palco eleitoral que tentam fazer, a luta para derrubar o Cota Zero é fruto da resistência e persistência desse povo”, acrescenta Herman Oliveira, do Formad.

Inconstitucionalidade em julgamento

Aprovada em junho de 2023, a Lei 12.434/24 é pauta de três ações de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF). O relator é o ministro André Mendonça que pouco tem se movimentado para dar prosseguimento ao julgamento e, até hoje, não emitiu o seu parecer. A legislação em vigência proíbe o armazenamento, comércio e transporte de 12 espécies de peixes em Mato Grosso até 2028.

O Formad está entre as organizações da sociedade civil aceitas como amicus curiae no processo, oportunizando à rede que contribua com argumentação jurídica e técnica nas ações junto ao Supremo. Entre os objetivos está a comprovação dos impactos socioambientais causados pela Lei, além da cobrança de estudos científicos que atestem a redução ou aumento do estoque pesqueiro nas bacias mato-grossenses.

A audiência pública pode ser acessada na íntegra, pelo canal da ALMT no Youtube. Confira: https://www.youtube.com/watch?v=HQzeux-rKUw

Redação JA / Foto: reprodução
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