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O que as eleições nos ensinaram sobre feminismo?

O que as eleições nos ensinaram sobre feminismo?

Existe uma reflexão de Aristóteles, em A Política, que considero especialmente relevante para pensar o significado das eleições sob uma perspectiva feminista: a organização política de uma sociedade não determina apenas quem exerce o poder, mas também quais valores serão legitimados, quais comportamentos serão estimulados e, sobretudo, quais modos de vida serão considerados desejáveis. É irônico recorrer a Aristóteles para falar de feminismo. Logo ele, que considerava a mulher um homem incompleto, defendia que a relação entre os sexos era naturalmente de superioridade masculina e inferioridade feminina e acreditava que tínhamos capacidade de pensar, desde que nossas decisões não tivessem muita autoridade. Mas temos que reconhecer nele um filósofo que ajudou a construir parte do pensamento político ocidental e ofereceu ferramentas para refletirmos sobre como os projetos políticos organizam a vida em sociedade.

Foi pensando nisso que comecei a olhar para as concepções políticas por uma outra perspectiva. Que tipo de mulher cada uma delas pretende formar? Porque todo projeto político carrega, mesmo que não admita abertamente, um projeto de mulher. Uma ideia de quem devemos ser, como devemos nos comportar, quais papéis devemos ocupar e até onde podemos exercer nossa liberdade. No fim das contas, a maneira como uma sociedade enxerga as mulheres diz muito sobre os valores que ela escolhe preservar e o futuro que pretende construir.

A composição da próxima Câmara dos Deputados já nos dá uma boa pista dos tempos que vêm pela frente. Dos 513 parlamentares eleitos para a legislatura de 2027 a 2030, 121 são do PL, que ampliou sua bancada em 24 cadeiras e passou a ocupar o posto de maior partido da Casa. O conservadorismo saiu fortalecido das urnas, o que me faz pensar que o futuro, por aqui, anda olhando bastante pelo retrovisor. O partido tem uma ideia bastante particular do lugar que as mulheres devem ocupar na sociedade. Sob a liderança de Michelle Bolsonaro, o PL Mulher gira em torno de uma agenda conservadora, que exalta a família tradicional, a maternidade e os papéis femininos associados ao cuidado. Uma visão que vai na contramão de pautas históricas do feminismo, como autonomia reprodutiva e igualdade de gênero. E aí temos uma contradição e tanto, até indigesta eu diria. São mulheres conquistando espaços na política para defender um modelo de sociedade que pretende continuar dizendo às outras mulheres qual é o lugar delas. Aparentemente, a emancipação feminina é muito bem-vinda, desde que não seja usada pela maioria.

E aqui chegamos a Eduarda Campopiano. Inevitável não citá-la quando falamos nos novos rostos com velhas ideias que o conservadorismo colocou em evidência nessas eleições. Aos 23 anos, ela conquistou quase 2 milhões de votos e se tornou a deputada estadual mais votada de São Paulo. Autointitulada “a maior inimiga das feministas de SP”, faz do combate ao feminismo uma de suas principais bandeiras. É pródiga em declarações polêmicas e parece saber muito bem como atrair os holofotes, mas seria um erro tratar suas falas apenas como busca por palco e aplausos. Elas não são inofensivas, ao contrário, ajudam a naturalizar ideias

perigosas. “Feminicídio não existe”, afirmou. Em outra ocasião, defendeu que “um homem que não sabe ser agressivo quando precisa não é um grande exemplo de homem”. E, para completar, declarou: “Não devo nada ao feminismo. Nenhuma mulher deve”. Mas, sinceramente, não é Eduarda quem mais me preocupa e sim os milhões de eleitores que escolheram esse discurso e decidiram que esse é o projeto de representação feminina que merece chegar à Assembleia Legislativa.

O que as eleições nos ensinaram sobre feminismo? Talvez a principal lição seja perceber que a presença de mulheres nos espaços de poder não é, por si só, sinal de transformação. Podemos conquistar direitos, ampliar nossa participação na vida pública e ocupar lugares que durante séculos nos foram negados sem que isso provoque, necessariamente, uma mudança profunda na maneira como a sociedade pensa e trata as mulheres. As estruturas patriarcais continuam operando, inclusive dentro das instituições e, muitas vezes, pelas mãos de quem também é mulher. Pense bem, não é preciso impedir que mulheres cheguem ao poder quando é possível incentivar que algumas delas se tornem porta-vozes de um projeto que preserva antigas hierarquias. Estratégia perfeita, muito mais eficiente. A representatividade, afinal, não garante compromisso com a emancipação. A presença de mulheres no poder só representa uma conquista quando contribui para ampliar a liberdade das demais. Porque, no fim, não basta mudar quem ocupa determinado cargo se as ideias que sustentam o poder permanecem intactas.

Sobre a autora:

Bruna Drews é jornalista, escritora e pesquisadora de comportamento feminino. Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, atuou por mais de 15 anos no jornalismo televisivo, com passagens por grandes emissoras de TV aberta. Na Record, foi repórter do Programa do Gugu e do jornalismo da emissora; na Band, integrou as equipes de Tá na Tela, Café com Jornal e Brasil Urgente.

Ao longo da carreira, cobriu diferentes temas e realidades, experiência que contribuiu para a construção de um olhar crítico sobre questões sociais, comportamento e os mecanismos culturais que influenciam especialmente a vida das mulheres.

Atualmente, dedica-se à escrita e à pesquisa sobre comportamento, sociedade e subjetividade feminina.

 

Sobre “A Pílula Lílás”

Em A Pílula Lilás – Um Manifesto sobre a Domesticação da Psique Feminina, a jornalista e escritora Bruna Drews investiga os mecanismos sociais, culturais e psicológicos que condicionam mulheres a determinados comportamentos, papéis e expectativas. Medo, culpa, silenciamento, submissão e pressão estética atravessam uma reflexão sobre violência patriarcal, feminicídio, cultura do estupro, misoginia nas redes sociais e transtornos alimentares.

A partir de experiências pessoais e de mais de 15 anos de atuação como repórter, incluindo coberturas de casos de violência contra a mulher e sua própria experiência como vítima de assédio sexual no ambiente profissional, Bruna aproxima vivências individuais de questões coletivas e discute como relações de poder e estruturas sociais contribuem para a naturalização de comportamentos abusivos e para a limitação da autonomia feminina.

Dialogando com referências como Carl Jung, Simone de Beauvoir, Naomi Wolf, Clarissa Pinkola Estés e Márcia Tiburi, a autora propõe um percurso de tomada de consciência e questionamento de padrões incorporados ao longo da vida. Ao ressignificar a metáfora da “pílula”, apropriada pelo movimento red pill, A Pílula Lilás convida as mulheres a romper narrativas aprendidas sobre seus corpos, desejos e escolhas e a recuperar uma relação mais autônoma com a própria identidade.