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No agro, esperar a crise se agravar pode custar a recuperação do negócio, alerta advogado

No agro, esperar a crise se agravar pode custar a recuperação do negócio, alerta advogado

Com 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre, Maurício Gewehr defende identificação antecipada de sinais de deterioração e revisão de custos, dívidas e investimentos

O agronegócio brasileiro registrou 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da Serasa Experian. Para Maurício Gewehr, advogado empresarial e gestor agrícola, porém, a recuperação judicial não representa o início da crise, mas o estágio final de um processo que pode começar meses ou até anos antes.

“A crise não começa quando a empresa deixa de pagar ou entra em recuperação judicial. Esse é o último estágio de um processo que começou muito antes. O momento de agir é quando ainda existem alternativas”, afirma.

Na avaliação de Gewehr, o problema está muitas vezes na demora para reconhecer sinais como aumento do endividamento, redução das margens, necessidade recorrente de renegociação e dificuldade para manter o fluxo de caixa. Quando esses indicadores são percebidos apenas diante da falta de recursos, a capacidade de reação já pode estar comprometida.

A experiência do advogado empresarial, que também atua na gestão de uma propriedade familiar que passa por um período de ajustes financeiros e desafios climáticos, auxiliou a reorganização da operação e permitiu equilibrar o fluxo de caixa, ajustar a escala de produção, retomar o uso de crédito oficial e amenizar o impacto do passivo ainda existente.

“Se a empresa só olha para os números quando falta dinheiro, ela já perdeu uma parte importante da capacidade de reação. A gestão da crise começa antes de a crise aparecer”, explica.

O mesmo princípio, segundo Gewehr, vale para decisões de expansão. Em períodos de maior confiança, empresas e produtores podem aumentar investimentos, assumir dívidas ou ampliar operações sem avaliar adequadamente o impacto que esses compromissos terão caso o cenário mude.

“O problema não é crescer ou assumir riscos. É não saber qual é o limite que a empresa consegue suportar. Antes de um novo investimento, é preciso projetar também o que acontece se a receita esperada não vier, se o custo aumentar ou se o mercado mudar.”

No agronegócio, essa análise ganha peso diante da combinação de fatores que podem alterar rapidamente os resultados, como clima, preços das commodities, juros e custos de produção. A dificuldade de uma empresa também pode se espalhar pela cadeia, afetando fornecedores, revendas, tradings e instituições financeiras.

Para Gewehr, a prevenção não significa evitar investimentos ou adotar uma postura excessivamente conservadora, mas tomar decisões conhecendo a capacidade de absorver seus riscos.

“Quando a empresa ainda tem caixa, ativos, crédito e capacidade de negociação, ela escolhe como reagir. Quando espera até o limite, as circunstâncias passam a escolher por ela.”

A principal recomendação, portanto, é agir enquanto ainda existem alternativas de reorganização. Revisar custos, renegociar compromissos, adequar investimentos e acompanhar indicadores financeiros são medidas que podem evitar que uma dificuldade pontual se transforme em uma crise estrutural.

“A recuperação judicial não deveria ser o primeiro momento em que a empresa decide enfrentar seus problemas. Quanto antes o empresário reconhecer que o modelo precisa ser ajustado, maior é a possibilidade de preservar o negócio e atravessar um período difícil”, conclui.

Sobre Maurício Gewehr

Advogado com mais de 15 anos de atuação em direito empresarial, contratos e negociações complexas, sócio do Kipper Gewehr Advogados. Mestre em Direito da Empresa e dos Negócios, doutorando em Gestão e Negócios pela Unisinos, com LLM em Direito Empresarial pela FGV e curso de negociação no Program on Negotiation, da Harvard Law School. Administra uma operação agropecuária familiar. Atualmente é Doutorando no Programa de Gestão e Negócios da Unisinos com pesquisa voltada aos métodos de resiliência econômica no empreendedorismo rural.

Por: Lourenço Marchesan / Camejo Comunicação