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Caso Natura expõe novo risco jurídico do uso de inteligência artificial em processos

Caso Natura expõe novo risco jurídico do uso de inteligência artificial em processos

Prompt injection em petição judicial levou à condenação por litigância de má-fé e reforça necessidade de governança e supervisão no uso de IA

O uso de inteligência artificial em processos judiciais está criando novos desafios para empresas e escritórios de advocacia. Em Santa Catarina, neste mês, a Natura foi condenada por litigância de má-fé após a Justiça identificar o uso de prompt injection , técnica que consiste na inserção de comandos ocultos para influenciar o comportamento de sistemas de IA, em uma petição apresentada em uma ação movida por uma consumidora. O comando, inserido no documento, orientava uma eventual ferramenta de IA do sistema de Justiça, a produzir uma sentença favorável à empresa. O resultado: a Justiça aplicou multa de 10% sobre o valor atualizado da causa, além de condenar a Natura e outra empresa ao pagamento de R$ 5 mil por danos morais à consumidora, e determinou o envio do caso à OAB para apuração da conduta dos advogados envolvidos.

Para a advogada Cris Dorneles, formada pela PUC-RS e com mais de 20 anos de experiência em direito trabalhista e empresarial, o episódio mostra que o principal risco não está na tecnologia em si, mas na ausência de controles sobre sua utilização. “A inteligência artificial pode aumentar a produtividade do jurídico, apoiar a análise de documentos e acelerar tarefas, mas a responsabilidade pelo conteúdo que chega ao processo continua sendo humana. O uso da tecnologia não transfere para o algoritmo os deveres de diligência, ética e boa-fé, cabem aos profissionais e à empresa”, afirma. Segundo ela, a situação também reforça a importância dos departamentos jurídicos acompanharem a atuação de escritórios terceirizados e estabelecerem regras claras para utilização, revisão e auditoria de ferramentas de IA.

O caso ocorre em um momento de maior atenção do Judiciário aos riscos associados à inteligência artificial. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina já publicou orientação específica sobre prompt injection, alertando para a possibilidade de comandos serem escondidos em documentos por meio de fontes reduzidas, textos invisíveis, metadados ou outros recursos. Para Cris, a resposta das empresas precisa envolver governança. “Não basta permitir ou proibir o uso de IA. É preciso definir quem pode utilizar essas ferramentas, quais informações podem ser inseridas, como os documentos serão revisados e quem será responsável pela validação final. A tecnologia acelera processos, mas não substitui ética, estratégia e supervisão jurídica”, diz.

Em posicionamento divulgado sobre o episódio, a Natura afirmou que não compactua com práticas que violem a ética processual ou com o uso inadequado de ferramentas tecnológicas. “A Natura esclarece que não foi notificada da decisão e informa que não compactua com práticas que violem a ética processual ou que utilizem ferramentas tecnológicas de forma inadequada. A empresa iniciou apuração dos fatos junto ao escritório patrono da ação e adotará as providências cabíveis.”

Redação JA / Foto: reprodução