Também tenho vergonha!

Vivemos tempos avessos. Já lá se vão décadas desde que o Brasil se vestiu de verde-amarelo e exigiu “Diretas Já”. E elas vieram.

Na sua carona, nasceu uma menina carinhosamente apelidada de Constituição Cidadã, hoje uma jovem senhora. Sugestivo, o nome! Talvez o autor desta iniciativa tenha pensado exatamente num dos principais objetivos a que toda Carta Maior se proponha, seja do Brasil, seja de outra nação: o direito do cidadão de manifestar opinião.

Assisti, estarrecido, à reação do ministro Ricardo Lewandowski frente a uma simples opinião do colega advogado Cristiano Acioli, justamente ele, integrante do STF, a quem foi outorgado o dever de protegê-la.

Aaaah, excelência! Minha idade já passou da meia-noite e o meu tempo de advocacia não mais alcançará o meio-dia. Mas nem lá nuns tais de anos ´seis mais quatro´ me deparei com tamanha incoerência. Meus primeiros passos na vida jurídica são de idos tempos. Muito cedo me foi apresentado o dinossáurico Código de Hamurabi. Depois conheci o senhor Talião; mais adiante sentei com as senhoras Ordenações; um certo Direito Romano andou ocupando lugar; e cá estamos nós, vangloriando-nos de trilharmos na linha de uma certa senhora que atende pelo nome de Democracia.

Mas excelência, nunca me deparei com alguma Doutora Constituição desautorizadora de opiniões.

Diante de tão inusitada reação, encaramujei-me até os confins da quinta parte do pó da essência da minha ignorância, no afã de alcançar algum indício de explicação para tal. Mas só me surge a hipótese de que o STF seja uma entidade revestida de couraça à prova de críticas. O cidadão pode dizer o que quiser, desde que não opine contra o STF.

Na linha da excelência ferida, o STF está além do alcance dos simples mortais.

Tenho a mesma vergonha manifestada pelo Doutor Acioli e, por isso, a minha solidariedade a ele.

Minha solidariedade também à esmagadora maioria da sociedade brasileira, que abertamente assim se tem expressado.

Por fim, minha solidariedade à significativa parcela dos próprios magistrados deste país, cujos rostos andam ruborizados por conta dessa mesma vergonha. Fonte;Espaço Vital

 

Por Antonio Silvestri, advogado (OAB-RS nº 17.672)

7, dezembro, 2018|