Os motivos para a alta do dólar e a previsão para dezembro

Ao longo do último mês, o dólar subiu da faixa dos R$ 3,70 para R$ 4,16, na máxima desta segunda-feira (26). Embora a moeda norte-americana tenha ultrapassado a barreira dos R$ 4 há duas semanas e siga com tendência de alta, a expectativa é que ao final do ano ela retorne pelo menos para o patamar de R$ 3,80. Esta é a previsão de economistas ouvidos pelo Terra, que acreditam que os fatores para a pressão cambial perderão força até dezembro.

Imagem de notas de dólares (07/11/2016) REUTERS/Dado Ruvic/Illustration/File Photo - RC120C30A5F0
Imagem de notas de dólares (07/11/2016) REUTERS/Dado Ruvic/Illustration/File Photo – RC120C30A5F0 – Foto: Reuters
O corte dos juros pelo Banco Central norte-americano, as eleições na Argentina e, principalmente o acirramento da guerra comercial entre Estados Unidos e China são, na visão dos especialistas, os principais responsáveis pela alta do dólar.

Os atritos do governo brasileiro com alguns países europeus em questões como o desmatamento da Floresta Amazônica também poderiam gerar incertezas e acabar contribuindo para o movimento. Porém, a avaliação é de que o direcionamento da política econômica, com reformas e privatizações no País, está até amenizando a disparada da moeda.

“No curto prazo, o nível de R$ 4 se justifica pelo clima externo mais negativo”, explica o economista da Tendências Consultoria, Silvio Campos.

Na última sexta-feira (23), o presidente dos EUADonald Trump, anunciou aumento das taxas de importação sobre produtos chineses em retaliação às tarifas extras do país asiático sobre os norte-americanos. O republicano prometeu subir os percentuais de 25% para 30% sobre 250 bilhões de dólares em produtos importados e de 10% para 15% sobre os 300 bilhões restantes.

“Voltou à tona a guerra comercial entre os países. Foi um gatilho para uma nova onda de aversão ao risco. Isso derrubou moedas de países emergentes”, explica Campos. Para o economista, a normalização do mercado de câmbio está de fato atrelado à relação, conturbada e cheia de altos e baixos, entre China e EUA. Nesta segunda (26), Trump amenizou o discurso, celebrando as últimas conversas com o governo chinês e sugerindo que poderia até adiar as novas tarifas.

O dólar começou o movimento de alta no final de julho. Campos lembra que a redução da taxa de juros pelo Federal Reserve (Banco Central dos EUA), no dia 31 de julho, para uma faixa de 2% a 2,25% já era esperado, mas o dólar ganhou “fôlego” porque a instituição não sinalizou que continuará o movimento de corte, conforme expectativa dos analistas. Foi em 1º de agosto que a moeda disparou, rompendo de vez os R$ 4, com o anúncio anterior de aumento das tarifas pelos EUA de 25% e 10% sobre os produtos chineses.

Eleições argentinas

O principal candidato de oposição ao governo do presidente argentino Mauricio Macri venceu com larga vantagem as eleições primárias disputadas no dia 11 de agosto. Com a vitória, Alberto Fernández, que tem como vice a ex-presidente Cristina Kirchner, se tornou o favorito para assumir a Casa Rosada pelos próximos quatro anos. O resultado assustou o mercado financeiro e o dólar subiu de 45 para 60 pesos argentinos em três dias – uma alta de 33%.

“A Argentina é o terceiro maior comprador de produtos brasileiros. A alta do dólar lá torna os produtos importados mais caros para eles. Isso significa menos exportação do Brasil e menos dólares entrando no nosso mercado”, contextualiza o economista e professor da FGV Mauro Rochlin.

Chapa de Alberto Fernandez (direita) e da ex-presidente Cristina Kirchner é favorita a vencer as eleições na Argentina em 2019
Chapa de Alberto Fernandez (direita) e da ex-presidente Cristina Kirchner é favorita a vencer as eleições na Argentina em 2019 – Foto: Agustin Marcarian / Reuters

Ele alerta ainda que os fundos de investimento que compram títulos dos países veem as economias latino-americanas e emergentes como um grupo único. Por isso, qualquer imprevisibilidade para investidores em uma grande economia da região gera turbulência também nos vizinhos.

“A volta da chapa kirchnerista gera o temor de um novo calote”, diz o economista Silvio Campos, referindo-se ao não pagamento da dívida pública pelo governo federal argentino. Quando governou o país, Cristina renegociou a dívida para poder arcar com os contratos sem abalar a economia argentina, mas alguns credores não aceitaram o acordo.

“Respinga por aqui, porque a Argentina é um mercado relevante, principalmente para bens industriais brasileiros”, diz Campos.

A título de curiosidade, os gráficos a seguir mostram a evolução mensal e anual do dólar em reais. Os dados estão com seus valores históricos, sem correção pela inflação.

BC e a economia brasileira

Banco Central tem agido para frear a desvalorização cambial. Na última quarta-feira (21), por exemplo, o BC vendeu R$ 200 milhões em reservas internacionais, algo que não ocorria desde 2009.

“Fiquei surpreso com a medida”, afirma Mauro Rochlin. O professor da FGV diz que, para funcionar, o mercado precisa acreditar que o Banco tem condição de manter a política e que eventuais movimentos especulativos não se sobreponham a essa venda de dólar. “É um jogo de difícil prognóstico”.

Para o economista da Tendências Consultoria, Silvio Campos, por enquanto, os volumes são tímidos. Mas ele acredita que não deixa de ser uma sinalização importante. “Mostra que BC está atento a eventuais situações de escassez de dólares do mercado à vista”.

O último Boletim Focus do BC, divulgado na segunda-feira (26), estimou que o dólar estará em R$ 3,80 ao fim do ano. A conta é feita com projeções de mais de 100 instituições financeiras.

O Banco Central tem tentado frear a desvalorização cambial (imagem de 16/05/2017) REUTERS/Ueslei Marcelino
O Banco Central tem tentado frear a desvalorização cambial (imagem de 16/05/2017) REUTERS/Ueslei Marcelino

Foto: Reuters

Sobre a atual situação do País, os economistas alertam que o discurso do governo de Jair Bolsonaro, principalmente nas questões ambientais, pode atrapalhar a recuperação do real.

“As declarações do presidente são muito mal vistas e geram ruídos na nossa comunicação com o resto do mundo. Isso pode gerar danos ao País, principalmente com relação ao comércio exterior”, aponta o professor Mauro Rochlin. O economista da Tendência Consultoria, Silvio Campos, também expôs sua preocupação: “tem fluidos políticos que não contribuem”.

Com relação a agenda econômica do governo federal, os economistas concordam que a política serve como atenuante para a valorização da moeda americana. Além de privatizações em andamento e da reforma da Previdência, que deve ser aprovada no Senado, há ainda a expectativa para a reforma tributária para o ano que vem.

Mauro Rochlin explica que o mercado está otimista porque “entende que o País tem reservas [internacionais], tem fluxos cambiais positivos e terá uma condição fiscal melhor com a reforma da Previdência”. Para Silvio Campos, “do ponto de vista local, a agenda até é favorável aos ativos domésticos”

 

Por; Lucas Baldez / IstoÉ

Foto; Reprodução

27, agosto, 2019|