Justiça promove Círculos de Paz como prevenção à violência no ambiente escolar

O massacre em Suzano (SP), no dia 13 de março, chocou a população brasileira e repercutiu internacionalmente. Um adolescente e um rapaz, ambos encapuzados e armados, entraram na Escola Estadual Professor Raul Brasil e abriram fogo contra quem passava pela frente. Cinco alunos e dois funcionários da unidade de ensino morreram no ataque. Outros 11 estudantes ficaram feridos. Com a chegada da Polícia Militar um dos assassinos teria atirado no comparsa e, então, cometido suicídio.  Pouco antes do ataque, a dupla havia ferido o proprietário de uma loja de carros usados da região, que era tio de um dos assassinos e foi a óbito no hospital. Os assassinos, Guilherme Taucci Monteiro, 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, 25, eram ex-alunos do estabelecimento de ensino.

A tragédia trouxe à tona a necessidade de debater propostas de paz na escola, uma preocupação constante do Poder Judiciário, que realiza, desde 2015, por meio do Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (Nugjur), os Círculos de Construção de Paz.  A psicóloga e uma das facilitadoras do projeto, Roseli Saldanha, diz que o mote do projeto é a prevenção. “Promove a saúde emocional e previne também. Se começo lá na educação infantil a falar de emoções, estimular esse ser humano a falar, na adolescência e fase adulta isso será mais tranquilo”, esclarece. “Freud já ensinava a cura vem pela fala”, diz ao citar o criador da Psicanálise.

Na semana passada, a cultura pela paz, por meio das técnicas sistêmicas, foi aplicada pelas facilitadoras do projeto do Judiciário no Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), Campus Cuiabá. Os encontros começaram na segunda-feira (11) e se encerraram na sexta-feira (15). Ao todo, 150 estudantes, de 16 a 22 anos, dos cursos de Secretariado e Eletroeletrônica, professores e coordenadores participaram dos círculos.

O estudante do 3º ano de Secretariado, Arthur Antunes, 17, avaliou como positiva a participação dele. “Dá oportunidade de falar e escutar e, assim, entender a pessoa”, resume. “O que mais gostei é que ouvindo o outro a gente consegue compreender o lado dele, percebe nossos erros e sabe como sua ação afetou o outro e, assim, a sala fica mais unida”, afirma. “Podemos executar o que aprendemos na família também. Ouvir mais o irmão, irmã, mãe, enfim levar o conhecimento para fora daqui”.

Para o estudante Myguel Ramos, 17, iniciativas como as dos círculos de paz ajudam a inibir situações como a de Suzano. “A maioria que tem essas ideias destrutivas vive uma guerra interna, não é de um dia para o outro que alguém faz um ataque e faz aquela barbaridade”, avalia. “Se tiver um círculo desses, mostrando para as crianças que é uma coisa boa abrir os sentimentos quando você passar uma situação, ter um pensamento que acha que é certo, mas quando você expõe, a pessoa pode perceber que isso não é uma coisa legal”, completa.

“Trabalhamos com a pacificação social. A gente dá vez e voz para os adolescentes e todo e qualquer integrante que participa do Círculo de Construção de Paz, ferramenta da Justiça Restaurativa”, explica a psicóloga. “Nós construímos combinados, valores, falamos do coração para o coração, proporcionamos um espaço seguro para que cada um deles possa falar dos seus sentimentos e se autoconhecer”.

O diretor geral do IFMT, Campus Cuiabá, Cristovan Albano, participou de uma das oficinas e disse que o momento foi enriquecedor. “Há uma troca de conhecimento, permitindo que aumentem a interação com a turma e com outros da escola, inclusive com os servidores. Imagino que situações como Suzano vêm de jovens que não conseguem expressar os sentimentos, muitas vezes nem no seio familiar. Momentos como esse de partilha de sentimentos, leva a rever emoções e dirimir situações como a de Suzano”, compara.

A professora Amarília Mathilde da Silva, que atua com adolescentes desde 2006, informa que buscou parceria com o Poder Judiciário para manter a paz na instituição, que é centenária e possui cerca de 1000 alunos. “Temos uma psicóloga educacional que sozinha não dá conta de atender a todos. A atividade do círculo ajuda na mediação de conflito, em situações de bullying”, acredita. “Resolvi promover ao longo da semana até em função do massacre em Suzano. Se a gente faz essas atividades prevenimos essas situações de divergências e da violência”, aponta.

A professora diz que se o trabalho existisse em outras instâncias evitaria muitas tragédias. “É uma ação de prevenção. Não queremos só dar advertência. Por exemplo, por trás das vítimas de Suzano que morreram porque alguém atentou contra a vida delas, mas as que praticaram a violência também são vítimas, Têm um histórico que não pode ser negado e acredito que esse tipo de trabalho poderia ajudar a sanar situações conflituosas dentro da instituição”, pondera. “Sou fã da iniciativa. Parabenizo o Poder Judiciário pela relevância desse trabalho e que deveria alcançar ainda mais a sociedade. Estamos vivenciando um contexto que precisamos muito da paz”, completa.

Por; Alcione dos Anjos

19, março, 2019|