Gravidez na adolescência: jovens abandonam estudo para cuidar dos filhos

07/02/2019 – O sonho de se tornar uma arquiteta, chegar à faculdade ou pelo menos concluir o ensino médio está cada vez mais distante para Rosana* que aos 16 anos, grávida de sete meses do segundo filho, interrompeu os estudos. Ela ‘parou’ no 9º ano do ensino fundamental da rede estadual e ao mesmo tempo em que diz pretender continuar na escola, sabe da dificuldade que será conciliar os cuidados com dois filhos e as tarefas escolares.

Dados estatísticos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) apontam que as mulheres matriculadas em escolas públicas têm uma probabilidade sete vezes maior de ficarem grávidas, em comparação com aquelas matriculadas em outras instituições de ensino.

A gravidez precoce é um problema de saúde pública porque causa riscos à saúde da mãe do bebê e tem impacto socioeconômico, já que muitas das grávidas abandonam os estudos e apresentam maior dificuldade para conseguir emprego. Rosângela está entre essas milhões de jovens no Brasil que interrompem a fase da adolescência pela surpresa da maternidade, aumentando o índice de evasão escolar.

Moradora de um bairro periférico em Cuiabá, ela faz parte do perfil das adolescentes gestantes que possuem falta de comunicação em casa, baixa renda, desestrutura familiar e atividade sexual precoce. Esta última relacionada ao histórico familiar semelhante. A sua mãe teve cinco filhos, o primeiro também aos 13 anos, sendo que em uma de suas gestações, chegou a estar grávida junto com a filha.

Quando houve a confirmação da primeira gravidez, a jovem lembra que tentou abortar fazendo uso de medicação por se achar muito nova para ter um filho, porém, segundo ela, viu que esse não era o caminho. Foi quando ela procurou o posto de saúde, no entanto, quase próximo do parto. “Na minha primeira gravidez eu tinha 13 anos. Não medi as consequências, me envolvi com um homem bem mais velho e fui contar para minha mãe só quando eu já estava de sete meses porque ela é muito brava”, relembrou.

Apenas com 16 anos, Rosângela já faz planos de morar junto com o namorado de 20 anos, pai de seu segundo filho. Atualmente ela mora em uma casa de duas peças com a mãe, padrasto, os três irmãos e o filho de três anos, um retrato de muitas famílias de baixa renda.

Após o nascimento do seu filho, Rosângela diz que vai colocar o DIU porque não pretende mais engravidar. “Se pudesse voltar no tempo faria tudo diferente. Ter filho hoje em dia não ‘tá’ fácil, tem muito gasto, pesa financeiramente e por causa dos cuidados também”.

Campanha – Essa problemática, ligada a fatores econômicos e sociais, tem a atenção do Poder Judiciário de Mato Grosso que pretende sensibilizar e orientar jovens e seus pais quanto a importância da prevenção e os riscos de uma gestação na adolescência. Palestras serão realizadas em escolas de Cuiabá e de algumas cidades do interior durante todo ano pela Coordenadoria da Infância e Juventude (CIJ), ligada à Corregedoria-Geral da Justiça de Mato Grosso.

Dados – Índice de nascimentos registrados entre 2010 e 2015, mostra que o Brasil é o quarto país da América do Sul com maior número de adolescentes grávidas, onde a cada grupo de mil jovens com idade entre 15 e 19 anos, 68 engravidam. Os dados são do relatório conjunto elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), divulgado em 2018.

*Nome fictício para preservar a identidade da adolescente

Por; Dani Cunha/ Foto: Reprodução

7, fevereiro, 2019|