Gravidez na adolescência: enfermeira fala da realidade das jovens

05/02/2019 – Mesmo com a queda no índice de gravidez na adolescência, registrado pela Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá – de 15% em 2014 para 12% em 2018 – é frequente a procura de jovens nas unidades de saúde. Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde (SES), em cinco anos foram registrados 50 mil adolescentes gestantes em todo Mato Grosso. Somente em 2015, cerca de 11.100 jovens tiveram gestação precoce e em 2018, aproximadamente 9.200. Especialistas da área atribuem essa redução de jovens gestantes à expansão do Programa Saúde da Família e também às campanhas e distribuição de medicamentos nos postos de saúde.

Apesar da redução no número de adolescentes grávidas, o índice ainda é alto e preocupante. Por isso, o Poder Judiciário de Mato Grosso, por meio da juíza auxiliar da Corregedoria-Geral de Justiça, Edleuza Zorgetti, vai desenvolver uma série de ações educativas, como palestras para os adolescentes e seus pais, com foco na prevenção. A temática sobre a gravidez na adolescência passará a ser debatida de forma mais ampla na primeira semana de fevereiro, após a sanção da Lei 13.798, de 3 de janeiro de 2019, que acrescenta ao Estatuto da Criança e do Adolescente o artigo instituindo a data de 1º de fevereiro para o início da Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência.

No bairro Doutor Fábio, na Capital, dez jovens entre 14 e 19 anos fazem o pré-natal com os profissionais. Elas são carentes, têm família desestruturada, são de baixa escolaridade, pouca ou nenhuma educação sexual durante a infância e adolescência, desistiram dos estudos e já tiveram mais de uma gestação.

Em meio a essa rotina está a enfermeira Linikhenia Araújo Cassol, que há quatro anos trabalha no local e diz que perdeu as contas de quantas meninas grávidas passaram por ali. Ela é uma profissional que tem lutado diariamente para garantir a contracepção dessas jovens com orientação para as dificuldades e riscos de uma gestação na adolescência. Na avaliação dela, a redução desse índice sobre jovens grávidas se deve a expansão das unidades de Programa de Saúde da Família e também do trabalho desenvolvido junto às moças nas unidades, porém, os números ainda são altos.

“Quando vim para cá fiquei assustada pela quantidade de adolescentes gestantes e pelo número de filhos que cada uma tinha e isso não mudou muito nos dias de hoje, pois a gente vê que acaba sendo um ciclo, já que a mãe engravidou cedo. Hoje temos meninas de 15 anos que não estudam e fica aí o questionamento da estrutura familiar em si. Quanto a isso pedimos o auxílio do Centro de Referência de Assistência Social, o Cras”, disse.

Todas as jovens que chegam ao posto de saúde são atendidas com foco na prevenção e na importância do uso dos métodos contraceptivos, que são oferecidos gratuitamente pela rede pública de saúde. A intenção, segundo a enfermeira, é orientá-las antes que engravidem. “Observamos que elas não param somente em um filho. Hoje temos uma menina que está na quinta gestação. Geralmente orientamos a colocar o DIU, mas depende muito da vontade delas e algumas se recusam a colocar”, relatou.

As consultas são feitas por meio de agendamento e ocorrem uma vez ao mês e dependendo da necessidade pode ser realizada em mais de uma ocasião. Mesmo que a jovem chegue desacompanhada, ela será atendida. “Procuramos atender as adolescentes bem mais de perto, com apoio do Cras. Temos grupos, como o de parto, que cria um vínculo muito grande entre as gestantes e a unidade de saúde”, informou a enfermeira.

Depois do nascimento da criança, as jovens mães recebem atendimento em casa nos primeiros 15 dias para as orientações sobre os primeiros cuidados com o bebê, amamentação, uma vez que são muito novas e em alguns casos não possuem o apoio da mãe. Depois de um mês as consultas, tanto com a adolescente, quanto com a criança são realizadas na unidade de saúde. “Verificamos se já saíram da maternidade com o DIU e aquelas que não colocaram, a partir dos 30 dias depois do parto já orientamos a usar contraceptivo”, falou.

Uma das grandes dificuldades relatadas pela enfermeira sobre a falta nas consultas de pré-natal e até mesmo de orientação é a distância da casa delas à unidade de saúde ou até mesmo a dificuldade de acesso. “Já é difícil a adolescente gestante vir até o posto de saúde quando mora longe, imagina depois que tem a criança. Quando elas não comparecem, a gente faz o rastreio para saber o motivo de não virem para consulta. Quando constatamos a dificuldade delas, algumas vezes a gente vai até suas casas. Infelizmente essa é outra dura realidade e a gente vê que se fosse uma unidade mais próxima para elas, acho que a adesão seria bem maior”, afirmou.

Outra iniciativa do posto de saúde no bairro Doutor Fábio é o pré-natal do homem. No caso daquelas que são casadas ou possuem um companheiro é solicitado que eles as acompanhem em pelo menos duas consultas. Quando são solteiras, a orientação é que compareçam com a mãe ou com um responsável. “Sempre pedimos que venham acompanhadas porque às vezes passamos uma informação e elas têm dificuldade de absorver. Na maioria das vezes as mães vêm acompanhando as filhas porque elas se veem naquela situação porque já passaram por aquilo, as filhas estão repetindo esse mesmo papel”, observou.

De acordo com dados de 2006 a 2015 do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) o Brasil tem a sétima maior taxa de gravidez adolescente da América do Sul, empatando com Peru e Suriname, com um índice de 65 gestações para cada 1 mil meninas de 15 a 19 anos

Remédios gratuitos – As unidades de saúde da capital dispõem de vários tipos de contraceptivos, todos de graça, como camisinha masculina e feminina, pílula do dia seguinte, remédios injetáveis, mensal e trimestral e os comprimidos.

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Por; Dani Cunha/ Foto; Reprodução

5, fevereiro, 2019|