Expressar raiva no tribunal do júri é bom para advogados, mas ruim para advogadas

20/08/2018 – No início de agosto, um advogado de Nova York atacou “repreensivelmente” a outra parte, despejou “uma série de insultos”, “ofendeu a honra dos oponentes” e fez “observações ultrajantes”, tudo em palavreado que beirou o chulo. A juíza o advertiu várias vezes, alertou o júri sobre seu comportamento inapropriado, mas após receber o veredicto do júri, ela se declarou frustrada: a estratégia agressiva do advogado funcionou. Os jurados concederam a seu cliente uma indenização de US$ 40,1 milhões.

A questão, discutida em três estudos diferentes, é a seguinte: se em vez de um advogado, fosse uma advogada que apelasse para tal estratégia, ela teria tido o mesmo sucesso no esforço para convencer os jurados a lhe dar um veredicto favorável. A resposta é não. Em palavras mais amenas, ela seria vista como uma “desclassificada”.

Mas os estudos mostram que há classificações piores que essa. Pesquisa da Universidade Estadual do Arizona fez uma experiência com 700 pessoas (homens e mulheres), que consistia em apresentar a um grupo um vídeo de um advogado que se expressou com raiva nas alegações finais de um tribunal do júri e a outro grupo o mesmo vídeo, mas representado por uma advogada, que se expressou com as mesmas palavras e a mesma raiva.

Os autores do estudo perguntaram aos participantes se contratariam tal advogado ou tal advogada e por quê. Só a advogada seria contrariada, de acordo com a maioria absoluta dos pesquisados.

Os adjetivos que classificaram o advogado raivoso foram, entre outros, “dominante, poderoso e competente”. E os que classificaram a advogada raivosa foram “estridente, histérica, áspera e ineficiente”.

“Um bom advogado deve, tradicionalmente, exibir suas características masculinas na corte, tais como raiva, agressão, poder. Mas uma advogada será penalizada por mostrar as mesmas características. As pessoas esperam que um advogado se expresse dessa maneira para ser bem-sucedido. Porém, para uma advogada, isso será um tiro pela culatra”, diz a professora da Universidade do Arizona Jessica Salermo, que coordenou o estudo.

Outros estudos
Um estudo da American Psychological Association, divulgado pela APA Psycnet, chegou a conclusões semelhantes. Os autores do estudo trabalharam com dois grupos, um de universitários e outro de membros da comunidade. A ambos foram apresentadas dramatizações de advogados (um advogado e uma advogada), que assumiram uma atitude raivosa nas alegações finais.

As perguntas, mesmas. Na análise do advogado, a maioria das pessoas destacou os aspectos positivos da raiva (convicção, poder etc.). Na análise da advogada, a maioria destacou os aspectos negativos da raiva (estridente, antipática etc.).

Para os autores do estudo, a expressão emocional, de forma agressiva, é entendida como parte essencial da atuação de um advogado no tribunal do júri. Ele deve ganhar credibilidade, perante o júri, demonstrando convicção, mesmo que através de expressões raivosas. Mas isso não vale para advogadas.

Gênero e raça
Uma terceira pesquisa, feita pela Universidade da Califórnia por encomenda da American Bar Association (ABA) e que será inteiramente divulgada em setembro, consultou 3 mil advogados e advogadas. O objetivo era descobrir o que acontece com advogados e advogadas que se expressam com raiva no trabalho e nos tribunais, se são mais ou menos interrompidos ou se são penalizados por um comportamento mais agressivo.

O resultado foi que há um duplo padrão. Tais características são boas para homens, ruins para mulheres, de maneira geral. Mas, além da questão do gênero, também pesa a questão da raça.

Eis algumas conclusões do estudo, conhecidas por enquanto:

Entre os entrevistados, 56% dos advogados brancos se sentem à vontade para expressar raiva, em comparação com 44% das advogadas brancas e 40% das advogadas negras.

Dois terços dos homens disseram que raramente são interrompidos, em comparação com metade das mulheres, sejam brancas ou negras.

Entre os entrevistados, 62% dos advogados brancos disseram que não são penalizados por comportamento agressivo, em comparação com 48% das advogadas brancas e 46% das advogadas negras.

Entrevistada pelo Jornal da ABA, a diretora do Center on the Legal Profession da Faculdade de Direito de Stanford, Deborah Rhode, disse que uma charge dar Arc.com, publicada no New Yorker, mostra bem a situação. Na charge, uma rainha diz ao rei: “But when a woman has someone’s head cut off, she’s a bitch” (Mas, quando uma mulher manda decapitar alguém, ela é uma… “bitch” pode ser traduzido como qualquer xingamento depreciativo à mulher).

Judô do gênero
Nas análises desses estudos, algumas sugestões surgiram para ajudar a advogada a superar essa desvantagem. Uma das mais repetidas é a de que a advogada deve dominar o “judô do gênero” (gender judo) – isto é, adotar a filosofia do judô, no que for apropriado, para vencer os adversários.

O judô pode se referir à “arte suave” ou à “maneira gentil”, segundo autores diferentes. Mas a ideia é a mesma: usar a força, o ímpeto do oponente para derrubá-lo e subjugá-lo. “Às vezes é preciso ser duro em uma luta, mas com um senso de empatia”, disse ao Jornal da ABA a professora de Direito da Universidade da Califórnia Joan Williams, que coordenou o estudo para a ABA.

Ela diz que a mulher pode se equipar com o arsenal de armas dos homens, quando vão à luta. Mas, para evitar que tiros saiam pela culatra, ela deve usar uma arma extra: a feminilidade.

A professora de Direito da Universidade de São Francisco Lara Bazelon talvez tenha definido de modo mais claro um caminho para as mulheres: a advogada tem de ser dura, sem perder a compostura. E lembra às advogadas que não podem deixar de ser agressivas, mas devem dosar a agressividade.

Ela disse ainda que uma advogada lhe contou que muitos advogados já pediram ao juiz para proibi-la de chorar no julgamento, embora nunca tenha chorado no tribunal.

Para Deborah Rhode, a diretora que falou sobre a charge e é autora do livro “Mulheres na Liderança”, a advogada tem de ser percebida como uma pessoa simpática. Em outras palavras, ela tem de fazer com que os jurados gostem dela.

Segundo a professora de psicologia Jessica Salerno, que coordenou o estudo da Universidade do Arizona, muitas advogadas disseram na pesquisa que não podem demonstrar raiva ou emoção como fazem os advogados em julgamentos. Assim elas têm de trabalhar mais arduamente do que eles para ganhar o júri”, disse a professora.

A advogada Patricia Holmes, que está se preparando para um julgamento que deverá durar de seis a oito semanas, disse que ouviu o conselho: use vestido, sapatos de salto baixo, pouca ou nenhuma joia, sorria sem parecer que está rindo. “Algum advogado receberia esse conselho?”, ela perguntou.

Ela disse que não se dá ao trabalho de contra-atacar o sexismo de outros advogados ou do juiz em um julgamento. Ela cuida apenas de desmascará-los, mostrando aos jurados, no decorrer do julgamento, que ela é muito bem preparada, profissional, articulada, conhecedora do caso, amigável e autêntica.

Deborah Rhode dá um conselho final: as advogadas que são confrontadas com sexismo pelos juízes dispõem agora de mecanismos oficiais para se queixar. E elas devem utilizar esses mecanismos, se quiserem eliminar o preconceito das salas dos tribunais.

 

Por; Jõao Ozorio de Melo – Conjur

20, agosto, 2018|